Publicado 08 de Setembro de 2014 - 11h16

Por Marcelo Rocha

Marcelo Araujo diz que é fundamental ?encontrar o ângulo bom, para o sol e para a paisagem escolhida?

Antonio Trivelin/ Gazeta de Piracicaba

Marcelo Araujo diz que é fundamental ?encontrar o ângulo bom, para o sol e para a paisagem escolhida?

Cavaletes, paletas, pincéis, espátulas, lápis, carvão, telas e outras plataformas. E tinta, muita tinta. Com esse arsenal, além de criatividade e sensibilidade aguçada, pintores de Piracicaba e de cidades da região vão invadir o parque da Rua do Porto, no próximo domingo, dia 14, das 8h às 12h. É o 2º Encontro Mundial de Pintura ao Ar Livre, que é realizado anualmente e de forma simultânea, em várias cidades do planeta, reunindo artistas plásticos apaixonados por paisagens e pelo prazer de produzir arte em locais abertos.

 

Em 2013, o encontro aconteceu no entorno da Casa do Povoador. A realização e a articulação global é da Associação Internacional de Pintores ao Ar Livre (Ipap). 

 

Em Piracicaba, seus entusiastas são os membros do “Caipiras do Plein Air”, grupo formado há quase dois anos e que engloba aproximadamente 30 artistas. “Todos os sábados a gente pinta ao ar livre, ou aqui na Rua do Porto, ou no Monte Alegre, ou na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). ou em outros lugares”, explica João Benatti, um dos articuladores do 2º Encontro Mundial de Pintura ao Ar Livre.

 

Outro mobilizador do encontro, Eduardo Borges de Araujo, que é o diretor da Pinacoteca Municipal Miguel Dutra, explica que o pintor Miguel Dutra foi um dos precursores do estilo ao ar livre na cidade. “Miguelzinho começou a pintar ao ar livre por volta de 1825, 1830, produzindo quadros com a técnica da aquarela aqui, em Itu, que era sua cidade natal, e em toda nossa região”, declara.

De lá para cá, uma série de pintores aderiu à prática, entre os quais o clã Dutra – Joaquim, Arquimedes, Alípio, Antônio de Pádua -, Joca Adâmoli, Renato Wagner e Antônio Pacheco Ferraz, entre tantos, relaciona Eduardo. Mas os pintores impressionistas, lembra Benatti, também já eram adoradores da pintura “in natura”. “Entre eles, podemos citar Claude Monet, Pierre Auguste Renoir, Camille Pissarro”, lista.

 

O professor alemão Johann George Grimm, que ministrava aulas na Academia Imperial de Belas Artes (Aiba), no Rio de Janeiro, de 1882 a 1884, é tido como um dos primeiros mestres a levar seus alunos para pintar fora das salas de aula, porque discordava dos métodos de ensino da instituição. “Até então, a arte era ensinada só dentro de salas de aula. Ele pegou os alunos, então todos subiram a serra e foram para Petrópolis, para pintar”, conta Eduardo Araujo. “Mas antes de ele fazer isso lá, Miguelzinho já tinha feito isso aqui”, ressalta.

 

O artista plástico Marcelo Araujo diz que “é essencial procurar um ângulo bom, tanto do sol quanto da paisagem escolhida”. Questionado sobre qual é o segredo para driblar o “belo clichê” que é pintar o rio Piracicaba, sem cair na pincelada comum, Marcelo é enfático. “As pinturas nunca ficam iguais. Eu mesmo já pintei este local, no mesmo horário, e sempre sai diferente”, afirma o pintor, às margens do rio.

“O horário influencia muito na tela. Prefiro pintar entre 17h e 17h30, é a luz que eu mais gosto. É um horário que torna muito forte a intensidade das cores, por exemplo do verde e do roxo. De manhã é muito rápida a passagem do sol, então dificulta para a gente”, afirma Marcos Nozella.

 

Já Tarciso Lorena, que costuma levar sua gaita para fazer a trilha sonora dos encontros semanais do “Caipiras do Plein Air”, frisa que estar cara a cara com a paisagem retratada significa “enfrentar as intempéries do ambiente, como o vento, sol, a luz que muda, a posição dos objetos”.

 

Gracia Nepomuceno, que é presidente da Associação Piracicabana dos Artistas Plásticos (Apap), diz que “no ateliê, normalmente se pinta com o auxílio de uma fotografia, enquanto ao ar livre você tem a paisagem com a nuance de cores, sombra e luz, compara. “Tem que ser um trabalho mais rápido, porque num instante muda a sombra, a luz. Se você quiser ser bem fiel, tem que voltar em outro dia, no mesmo horário”, observa a artista, que enaltece a “vivência coletiva” desse tipo de encontro.

 

Carlos Valério também ressalta o contato com a população. “Aquele trabalho do Galeria ao Ar Livre, no Cemitério da Saudade, já permitiu isso”, exemplifica, referindo-se à série de trabalhos executados no muro do cemitério, por diferentes artistas plásticos da cidade, ligados a várias correntes estéticas.

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Marcelo Rocha