Publicado 08 de Setembro de 2014 - 9h29

Por Tadeu Fernandes

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Tivemos a alegria de participar do Curso de Atualização em Pediatria, realizado semana passada, em Fortaleza. Foram momentos enriquecedores de ciência e, principalmente, reflexão. Hoje, quando a sociedade começa a despertar para a importância dos primeiros mil dias de vida da criança, evidencia-se a necessidade da nutrição e de toda relação de afeto nesse período que é o alicerce para uma vida mais saudável no futuro, em número de anos vividos, mas muito mais pela qualidade de vida.

Ficou claro que criança não é como um vaso de orquídea, com o qual se tem a preocupação somente em adubar com bons nutrientes, adicionar água e expor por um tempo ao sol. Uma criança é bem mais que isso. Ela precisa de vínculo, afeto e amor. Ser criança é querer ser feliz, é se esconder para nos preocupar. Ser criança é errar e não assumir o erro. É pedir com os olhos, é derramar uma lágrima para nos sensibilizar. Ser criança é isso e muito mais. Ser criança é merecer atenção, incentivo, monitorização, cogestão, não terceirização com a escola e, principalmente, intervenção do pediatra, para garantir que ela cresça em um corpo saudável, com mente desenvolvida, emoções e atitudes equilibradas para se tornarem adultos produtivos, competentes e fraternos.

E tudo começa com uma boa puericultura, com consultas periódicas de rotina que, atualmente, começam com uma visita ao pediatra no terceiro trimestre de gestação. E aí inicia também um vínculo holístico de acompanhamento a essa criança. A pediatria é uma antítese de especialidade médica porque não trata um só órgão ou sistema, mas o indivíduo como um todo, um ser indivisível do ponto de vista físico e psíquico. A meta é a saúde, um processo continuado de preservação da vida com qualidade, a busca pelo diagnóstico do “normal”.

A puericultura tem como base a consulta médica sistemática, cujo foco é a prevenção e a educação em saúde, e em que o vínculo de pediatra, criança e família é fundamental. É recente e a olhos vistos que a puericultura passa por um processo de resgate, está obtendo sua justa valorização social, científica e financeira pelos convênios médicos. A explicação fica evidente diante das exigências de atenção abrangente às chamadas “novas morbidades” ou “novas doenças”. Vivemos, dia a dia, o processo de transição epidemiológica, deixando de tratar doenças como a desnutrição e as infectocontagiosas para focar na prevenção das crônico-degenerativas.

Discutimos a implantação, no Brasil, de um projeto dos Estados Unidos conhecido como Bright Futures (Futuros Brilhantes), dedicado ao princípio de que toda criança merece ser saudável, e que a saúde ideal envolve uma relação de confiança entre pediatra, criança, família e comunidade como parceiros na prática da saúde. O Bright Futures indica que a puericultura se baseie numa “conexão vertical” dentro dos serviços de saúde, envolvendo todos os profissionais da área e pessoal auxiliar, associada a uma “conexão horizontal” com os programas comunitários de creches, escolas, associações de bairro, igrejas e serviços de saúde pública. A iniciativa toma como base que a consulta pediátrica busque o diagnóstico adequado da criança dentro de seu microambiente – ou seja, todo paciente deve ser visto no contexto de sua família e comunidade.

A consulta pediátrica deixou de ser um ato isolado e individual. Ela tem de estar inserida no contexto geral de vivência da criança. Em muitos casos, a solução dos sintomas não está em um medicamento, mas em mudanças no meio em que vive a criança. Parece complexo, mas os resultados são fantásticos.

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Tadeu Fernandes