Publicado 08 de Setembro de 2014 - 5h00

Por Antônio Contente

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Há certos fenômenos da natureza ótimos para verificar se as coisas estão a funcionar direito. Um deles, especialmente para quem, como eu, está numa ilha na foz do rio Amazonas, são as marés. Com o sutil detalhe, pelo menos ao meu redor, de você só perceber seus efeitos quando elas estão muito altas; ou muito baixas. Neste caso, talvez, até sejam mais marcantes para alguns. E aí está a linda canção “Ebb Tide”, de Carl Sigman e Robert Maxwell, imortalizada na voz de Frank Sinatra, que não me deixa mentir.

Para quem estranha eu estar a falar de maré ancorado num delta formado por rios, é bom saber que vivemos apenas o efeito do mar próximo, que empurra as águas doces para dentro durante seis horas; depois, em tempo semelhante, as recebe de volta. E inclusive os grandes cursos fluviais que aqui deságuam, como o Tocantins, experimentam o fenômeno até quase 100 quilômetros para dentro do curso.

Individualmente, não posso dizer que vivo em função das marés, que, porém, influem nos meus dias. Tecnicamente sei que são apenas alterações nos níveis das águas do mar causadas pela interferência da lua e do sol sobre aquilo que os doutos chamam de “campo gravítico” da Terra. Porém sei, também, que a influência realmente marcante é a do nosso satélite, pois a estrela que nos ilumina e aquece está muito longe. E os amigos hão de convir que tudo que diz respeito à Lua leva melhor ao onírico.

A cabana que me abriga neste pedacinho de terra do delta imenso é, como a maioria das que por aqui existem (como também em outras margens dos rios amazônicos) uma palafita. O que torna as habitações mais adaptadas às condições locais. Afinal, levantadas sobre pilotis de madeira a ventilação, num lugar de bons calores, porém bons ventos, fica facilitada. Outra vantagem é que nas chamadas “marés lançantes”, quando as águas da preamar sobem muito e invadem a terra, as moradas estão protegidas de ir ao fundo.

Na verdade, amigos, gosto das marés grandes. Não para que escorram nos baixos do meu tugúrio sempre, mas pela maravilha que é ver a correnteza subir e entrar pelas várzeas, atingindo os troncos de seringueiras, açaizeiros, bacabeiras; então, é comum avistar peixes grandes que se movimentam sobre folhas e raízes.

Devo confessar que nos nossos invernos, a estação em que chove mais, as marés, em certas circunstâncias do luar, levam as águas da baia a (raramente) inundar o chão onde a minha cabana está fincada. Todavia, se ocorre de o fenômeno se processar de madrugada, as magias acontecem.

No Inverno passado (agora aqui é Verão), em certa madrugada se uniram duas das principais, digamos, alimentadoras das “marés lançantes”. Primeiramente as chuvas caíram, sem interrupção, por mais de uma semana, a se derramar copiosamente sobre o delta. Uniu-se a isso enorme lua cheia. Pronto, enquanto eu dormia a superfície da baía foi crescendo, derramou-se sobre a terra silenciosamente até tomar o chão sob o assoalho do meu quarto. Fui despertando vagarosamente, com o marulho. Mesmo ainda não completamente acordado sabia que, embaixo da choupana, as águas grandes haviam chegado. Isso para depois, entre a vida e o sonho, ouvir ruídos que poderiam ser de peixes a saltar no súbito rio sob mim. Ao bufar de um boto, que emerge de vez em quando para respirar, tomei consciência que os habitantes das profundezas se movimentavam vizinhos de minha cama.

Querendo dormir de novo, imaginava, porém, estar à mercê das cobras grandes que se transformam em navios, ou das Iaras amazônicas, parentas nativas das sereias que encantaram Ulisses. Depois, veio o coaxar de sapos, os cris-cris de insetos sobre os quais os peixes saltavam, e por fim acabei dormindo mais para sonhar que estava sendo levado para os pélagos, onde há castelos e prados relvados no universo submarino.

Acordei com o primeiro sabiá da aurora e, aí sim, finalmente, tomei consciência de que deveria verificar o que estava acontecendo. Abri a janela do quarto sob o qual deveria haver somente água, porém estava tudo seco. Avistando o caseiro a mexer com coisas no pomar, pergunto se tivemos uma grande maré lançante. “Tivemos sim, porém não tão grande”, respondeu. Como também fui informado que sequer chegara perto dos pilares da choupana, gemi um “acho que ando sonhando demais”. O que é ótimo no desenrolar do processo; mas melhor ainda quando a realidade é tão fascinante quanto o que se vê dormindo...

Escrito por:

Antônio Contente