Publicado 08 de Setembro de 2014 - 5h00

Por Fábio Toledo

IG - FABIO TOLEDO

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IG - FABIO TOLEDO

Há tempos que falar em fidelidade soa como algo antiquado, que já caiu em desuso. E mesmo naqueles que a veem como algo positivo, como um valor a ser mantido e cultivado, não raras vezes mantêm um conceito redutivo, como mero sinônimo de ausência de relação sexual extraconjugal. Mas será que é fiel aquele que, como se dizia antigamente, simplesmente deixa de “pular a cerca”? Mais ainda, a fidelidade conjugal é algo superado? Uma exigência que tolhe a espontaneidade do amor e, portanto, incompatível com a maneira que se constroem os relacionamentos atualmente?

Penso que o primeiro passo para enfrentar esses questionamentos seja retomarmos o verdadeiro e mais profundo sentido da expressão. Numa rápida consulta, encontrei no Dicionário Online de Português um significado interessante: “Ação de cumprir as obrigações e/ou compromissos que foram assumidos com uma outra pessoa” (http://www.dicio.com.br/fidelidade/).

De fato, a fidelidade está muito relacionada com a atitude de honrar os compromissos assumidos. Mas não é só. Não se trata de um árduo cumprimento de um dever. Mais que isso, implica zelo, diligência ou cuidado por algo ou alguém. E a expressão diligência, qualidade tão encontradiça na pessoal fiel, tem sua origem muito próxima do amor.

Nesse sentido, amor e fidelidade estão tão próximos que não se pode dizer, de verdade, que se ama se não é fiel à pessoa amada, ao mesmo tempo em que a fidelidade alimenta o amor.

Mas, como dizíamos, a fidelidade não se resume a não manter relacionamento extraconjugal. É muito mais que isso, precisamente porque os compromissos que os esposos assumem também são muito maiores. O nosso Código Civil, após proclamar que o casamento instaura uma comunhão plena de vida, elenca como deveres assumidos pelos cônjuges: “I - fidelidade recíproca; II - vida em comum, no domicílio conjugal; III - mútua assistência; IV - sustento, guarda e educação dos filhos; V - respeito e consideração mútuos”.

E esses deveres assumidos somente ganharão vida se se traduzirem em pequenas ações concretas, todos os dias. Assim é que vida em comum implica não apenas dividir o mesmo teto, mas cada qual fazer o possível para estar com o outro e com os filhos, assim como para que esse tempo seja verdadeiramente de um saudável convívio familiar. Para tanto, muitas vezes será necessário ter a fortaleza de saber terminar o trabalho na hora prevista, fazendo render o tempo, para que se consiga estar com a família no momento previsto.

Mútua assistência. Também não se reduz a cuidar do outro quando esteja doente.

Isso é importante, mas é pouco. Na verdade, cada marido, cada esposa deveria se questionar todos os dias: o que fiz hoje para agradá-lo(a) ainda mais? E, depois: o que posso fazer hoje para amar ainda mais a(o) minha(meu) esposa(marido)?

Além disso, encarar esse compromisso como definitivo dá aos esposos a fortaleza para enfrentar com valentia as dificuldades. Conta-se que “há um secular ritual cigano que prescreve que, ao se casarem, os noivos devem quebrar um vaso de barro; se não se puder voltar a juntar os pedaços, o casamento é considerado irrevogável. Mas o costume prevê também que, nessa cerimônia, uma criança pegue um caco desse vaso sem ser vista e o jogue longe, para que ninguém o possa encontrar...” (extraído do livro As crises conjugais, de Rafael Llano Cifuentes).

Mas há ainda um ingrediente fundamental: a alegria. A alegria, apesar de ser uma virtude, é também uma espécie de bússola, que nos aponta para o caminho correto. Não me refiro àquela alegria passageira, inconstante, que vem e vai com a mesma rapidez com que dura o sabor de um gole de uma bebida na boca. A alegria duradoura, serena, constante, que resiste às dificuldades, essa sim é um guia seguro de que se está no rumo certo.

E a fidelidade é, também, uma importante fonte de alegria, tanto que se pode dizer que fidelidade e felicidade andam juntas não apenas na semelhança fonética. São como os dois trilhos de uma mesma linha que conduzem — sempre juntos — ao destino a que fomos chamados.

Escrito por:

Fábio Toledo