Publicado 07 de Setembro de 2014 - 5h00

Por Zeza Amaral

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AAN

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Tenho os meus medos e um arremedo de coragem. É quase um cansaço pensar em cadafalsos e é quase milagre que ainda esteja por aqui, visto que as madrugadas foram longas, de copos cheios de dúvidas e cachaça barata.

Tenho as minhas dores e cicatrizes que jamais desejei. Não cabe, no momento, explicá-las. Tenho certeza que o raro leitor compreende que, às vezes, é melhor guardar determinados assuntos na gaveta do criado-mudo. É o que faço agora a respeito do que não entendo sobre ter fé e acreditar em políticos duendes. Respeito quem acredita no que acha necessário para seguir em frente, emocionalmente confortável, defendendo bagres, micos leões dourados e índios que cobram pedágio na Transamazônica.

Mas não quero, no entanto, Marina Silva para presidente porque não entendo nada do que ela diz. Sei apenas que ela foi petista de primeira hora e deixou o partido por ter sido preterida pelo seu até então mui amado Lulla da Sillva, que incensou Dilma Rousseff para ser presidente em 2010. Assim são os petistas até serem

confrontados com os seus pesadelos políticos. E Marina Silva decidiu ser dona de seu próprio partido, o que acabou dando em nada porque seus seguidores foram incompetentes para apresentar os requisitos básicos para tanto. E Marina Silva foi parasitar o PSB de Eduardo Campos e o resto sabemos no que deu. E também no que dará: se eleita, Marina vai se mandar de mala e cuia para a sua nem tanto assim emblemática Rede Solidária e deixar o ninho pessebista apodrecer no velho seringal político que ela bem conhece.

Posso ser interessante para alguns e desinteressante para outros. Faço o que posso. E inimigos tenho às pencas, como as bananas que dão à beira das estradas do litoral; e amigos não se conta, e nem devemos contar, pois um já nos torna ricos de qualquer coisa.

Olho para mim e vejo o que fiz nos últimos cinquenta anos — quarenta deles dedicado ao ofício de pensar, escrever e colaborar para a melhoria de nossas instituições democráticas. E também sobre o que a vida fez de mim, e sempre fugindo das circunstâncias covardes de transferir culpa para outrem. Faço o que posso, repito. Fazer o quê?

Farei nada. Como sempre. A não ser olhar para os meus interiores morais e pedir um pouco de compreensão e paz a mim mesmo, por algo que redima meus medos existenciais e os meus políticos sonhos frustrados, qualquer coisa assim. E paciência, muita paciência, que sem ela não é possível perdoar a mim e a nós todos que somos impotentes para combater a canalha política que faz do seu ofício uma arma para se manter no poder.

Já é tarde da noite e noto as luzes da cidade convidando os homens para perambularem pelos seus bares e os mais escondidos antros do seu ventre urbano. E eu que renasci tantas vezes pela minha cidade, pelo meu país, encolho as pernas em gesto fetal e, insone, renasço na minha própria cama, ao abandono da alma e crenças. Um tanto gripado. E só.

São assim as minhas madrugadas, fustigadas pelas canções frias de um inverno que parece não saber da hora de uma próxima Primavera, um tanto besta, entrando pelas frestas das janelas e assoprando suas vontades misteriosas. Não reclamo. Apenas digo que tenho saudade de algo que desconheço e dos amigos que me ajudaram a compreender a vida. Muitos já partidos; outros, desencontrados.

Isso não quer dizer que me divorciei da esperança. Apenas deixo-a à vontade para que ela possa decidir suas próprias emoções. Às vezes, é bom ficar assim, sem eira e nem beira, feito um velho navio amarrado em um canto qualquer de cais, se balançando ao sabor das ondas, mas sempre esperando um bom combate para o retorno ao mar.

E assim os meus tempos de independência voltam a bater na minha consciência avisando que é hora de zarpar para uma nova cruzada de ruas e calçadas, me convidando a seguir sozinho, sem seguidores, como sempre fiz na vida. E a pé mesmo; porém, muito bem acompanhado das minhas velhas e amadas dúvidas. E, sobretudo, das minhas parcas certezas.

Bom dia.

Escrito por:

Zeza Amaral