Publicado 09 de Setembro de 2014 - 9h37

Como ocorreu no ano passado, os professores do Estado se mobilizam para obter reajuste salarial em 2017. E já estudam greve

Gustavo Tilio/Especial para a AAN

Como ocorreu no ano passado, os professores do Estado se mobilizam para obter reajuste salarial em 2017. E já estudam greve

Se estivesse vestido com o uniforme da Escola Estadual João Lourenço, no Cambuí, o professor Guilherme Melo de Freitas passaria fácil por um aluno.

 

Aos 27 anos, cara de menino, ele encara o desafio de levar para a sala de aula a disciplina de sociologia, que voltou a ser obrigatória no Ensino Médio desde 2008.

 

Para trabalhar com conceitos muitas vezes abstratos ou que parecem teóricos demais ao pragmatismo da adolescência, o jovem sociólogo usou dois artifícios para atrair os alunos: a proximidade com a faixa etária e um projeto que utiliza a escrita de histórias de vida para introduzir o conteúdo previsto na apostila disponibilizada pelo governo estadual.

O trabalho foi desenvolvido com uma turma de 35 alunos do 1° ano do Ensino Médio.

 

“O objetivo foi mostrar a relação dos conteúdos com o dia a dia dos estudantes, além de diminuir o preconceito que eles tinham com a matéria”, conta.

 

Tudo começou com o livro Esboço de uma Autoanálise, do francês Pierre Bourdieu (1930-2002).

 

Nessa obra, uma das últimas que escreveu, o sociólogo narra como a sua carreira foi moldada por eventos políticos e sociais, como, por exemplo, ter prestado o serviço militar na Argélia no período de conflitos pela independência.

“A ideia foi aproveitar o exemplo de Bourdieu e mostrar para os alunos como os eventos pelos quais passaram, junto com suas famílias, foram responsáveis por dar a eles determinadas características”, explica o professor.

 

Os alunos foram, então, estimulados a escrever aquilo que Freitas nomeou de um “exercício sociológico autobiográfico”.

Da apostila adotada pelo Estado, com os conteúdos mínimos a serem abordados, vieram referências aos sociólogos Peter Berger e Thomas Lukman, que compreendem a sociedade como um processo, ao mesmo tempo, subjetivo e objetivo.

 

Para esses dois autores — um alemão, outro austríaco —, a sociedade é uma produção humana e o homem, por sua vez, é um ser socialmente constituído.

 

“Esse conceito é um pouco abstrato para os alunos, por isso a importância de trazer para o cotidiano”, explica.

Passo a passo

Cada um começou a investigar melhor a história de sua própria família. De onde vieram seus antepassados? Foram imigrantes? Por que optaram pelo Brasil? Como os avós se conheceram? Que tipo de trabalho desenvolviam? Que posições políticas tinham? Como enfrentaram períodos com as guerras e a ditatura?

 

Respostas a questões como essas, aos poucos, iam tecendo a história da constituição de cada um como sujeito, uma trajetória, muitas vezes, desconhecida pelos próprios estudantes.

Para ajudar a recuperar informações, os alunos reviraram também caixas e baús em casa em busca de documentos e fotografias, que serviram como detonadores de memórias.

 

“A proposta não era elaborar uma simples narração, mas aplicar, na própria biografia que estavam construindo, os conceitos aprendidos em aula. Tudo isso passou a ser ilustrado com as fotos significativas que conseguiram com a família. Muitos não tinham noção de seu passado”, diz Freitas.

Resultados

A partir da reconstrução de suas próprias histórias, os alunos perceberam como fatos, como a separação dos pais, por exemplo, foram significativos para a constituição dos adolescentes que são atualmente.

 

Muitos também passaram, de acordo com o professor, a valorizar mais a história de seus antepassados.

 

“O resultado foi muito positivo, pois os alunos passaram a perceber como os conceitos, antes abstratos ou para os quais tinham preconceitos estavam intimamente ligados à vida”, diz.

 

Como o professor teve o apoio da coordenação e da direção da escola desde o início das atividades, com os bons resultados, recebeu incentivo para adaptar o projeto também aos conteúdos previstos para os segundos e terceiros anos do Ensino Médio.

O professor lembra que, ao falarem de si, alguns “abriram a alma” e construíram narrativas cheias de emoção e símbolos.

 

“Houve alunas que relataram fatos como a importância do primeiro relacionamento, anexaram bilhetes de namorados, alianças... Esse trabalho também possibilitou explicar alguns conceitos que veem de outras áreas, como a psicologia e a filosofia.”

Freitas também acredita que a proximidade com a faixa etária dos alunos — são cerca de 12 anos de diferença apenas — também facilitou a atividade. Da mesma forma, a temática trabalhada ajudou a criar um canal de comunicação.

 

“Os alunos deixaram de ser estranhos diante de si mesmos e diante de mim enquanto professor. Cada um tem uma história e usar essa biografia não foi só um processo de identificação, como também enriquecimento da minha prática como educador”, afirma. 

 

Saiba mais

Sociologia e filosofia tinham sido extintas da educação básica em 1971, quando o governo militar resolveu substituí-las por educação moral e cívica, que vigorou até o início dos anos 90, com conteúdos referentes ao civismo e ao patriotismo.

 

À época, a justificativa era de que as matérias tinham caráter subversivo e induziriam ao comunismo.

 

Dos anos 90 até a promulgação da lei que as tornou novamente obrigatórias, sociologia e filosofia eram consideradas disciplinas do núcleo diversificado, cabendo às escolas e às diretorias de ensino sua inclusão nas grades curriculares.

 

Disciplinas voltam 

As disciplinas de sociologia e filosofia, extintas durante a ditadura militar, voltaram à grade das escolas de Ensino Médio depois de mais de 40 anos de exclusão, por meio da Lei 11.684, de 2008.

 

No entanto, agora, sofrem com outro problema: a falta de professores. Os cursos de licenciatura, no Brasil, formam cada vez menos educadores, já que os jovens são atraídos por outras áreas, principalmente pelas promessas de salários melhores do que os pagos para quem atua diante de uma sala de aula.

 

sociologia, filosofia, experiência 10Só para ter uma ideia, mesmo em algumas universidades públicas, sobram vagas para vestibulandos interessados em cursos na área de educação.

O piso salarial de um professor de educação básica (ensinos Fundamental e Médio) no Brasil é de R$ 1.697,37.

 

Em termos de comparação, esse valor representa cerca de um quarto da remuneração paga aos educadores em países europeus.

 

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) divulgada no início deste ano, em parceria com os estados, indicou a carência de 32 mil professores com formação específica nas 12 disciplinas que compõem atualmente o Ensino Médio.

 

Entre as mais afetadas estão sociologia, física e química. Muitos docentes que atuam dando aula dessas matérias, na verdade, têm formação em outras áreas, como biologia ou matemática, no caso de física e química.

 

Na ausência de licenciados em sociologia, o jeito é atribuir as aulas para licenciados em história, geografia ou até letras.

No Brasil, segundo dados do Ministério da Educação (MEC), cerca de 350 mil professores em exercício não possuem nível universitário. Outros 350 mil atuam em área diferente daquela para a qual se formaram.

 

A situação também se agrava com a falta de interesse dos jovens pelo magistério: 60% dos 2,5 milhões de professores brasileiros estão mais próximos de sua aposentadoria do que do início da carreira.