Publicado 10 de Setembro de 2014 - 5h00

Rodrigo de Moraes é jornalista da Agência Anhanguera de Notícias rodrigo@rac.com.br

Cedoc

Rodrigo de Moraes é jornalista da Agência Anhanguera de Notícias [email protected]

Em um desvão do Guaíba ficou a minha mãe. Lá, em uma tarde chuvosa da Primavera gaúcha, atiramos suas cinzas à água turva do lago que já foi chamado de rio — talvez por se originar do delta do Rio Jacuí, um emaranhado de terra e água que forma canais e ilhotas e que, visto do alto, de muito alto, forma o que parece ser um monstro com garras, ou um rosto humano distorcido pelo olhar de um pintor.

Foi nesse lugar que ela se misturou à imensidão: a água da qual passou a fazer parte, os barrancos, as árvores, as casas ribeirinhas, o céu, os furtivos peixes. Ficou em um lugar bonito, pensei, enquanto olhava e tentava registrar na memória o local onde nos despojamos de suas cinzas, que à medida que o barco andava foram ficando para trás em um rastro claro na água até se dissolverem por completo.

Sentada sozinha em um canto da embarcação, minha tia Graciana chorava baixinho um choro inconsolável pela irmã mais velha. Pela janela via-se ao largo Porto Alegre, conspícua como sempre e mais cinza do que nunca. Lá ela já enterrara meu avô e meu tio. “Que dia triste, meu Deus”, disse — quase exclamou — entre soluços.

Dias depois, me confidenciou que uma música não lhe saía da cabeça durante o trajeto pelo Guaíba. Ramilonga, do compositor Vítor Ramil, é uma elegia à capital gaúcha que se desenvolve em torno dos acordes de uma milonga, uma música dolente que lembra o cheiro de uma fogueira apagada em torno da qual se reuniram homens tristonhos e pensativos.

 

“Nunca mais, nunca mais”, diz o refrão, enquanto Ramil elenca partes da cidade que lhe são caras e que jamais vai voltar a ver: “Sobrevoo os telhados da Bela Vista/ Na Chácara das Pedras vou me perder/ Noites no Rio Branco/ Tardes do Bom Fim/ Nunca mais”.

 

Chovia nesse dia de tristeza quase insuportável. Mas era uma chuva contida, que parecia remoer toda a melancolia do mundo e destilá-la aos poucos, ao invés de derramar-se por completo. Era um clima adequado ao momento, afirmaram depois, talvez à guisa de consolo, talvez com toda a razão: minha mãe tinha seus momentos solares, mas muitas vezes se retraía e ficava a ponderar as coisas em silêncio, com uma gravidade que era muito própria dela.

 

Se lhe fosse dado optar, é provável que achasse mais adequado um dia escuro para que suas cinzas fossem espalhadas. Um dia que traduzisse o estado de espírito de todos que foram se despedir dela. Não que ela quisesse que fosse assim, desculpem o mau jeito, mas ela também estava sentida de ter que partir, e que a natureza se encarregasse de dar o recado.

* * * * *

 

Ainda não voltei lá, em um dos canais formados pela confusão de terra e água do delta do Rio Jacuí, que se derrama no Lago Guaíba logo abaixo e onde depositamos as cinzas de uma mulher que muito nos falta. Talvez eu volte em um dia de céu claro, o sol a transformar a superfície d’água em uma lâmina metálica e ofuscante.

 

Nesse dia agudo, talvez Ramilonga toque em minha cabeça e eu me despeça, como fizera da outra vez minha tia Graciana em sua infinita tristeza, dos telhados da Bela Vista, das noites do Rio Branco e das tardes do Bom Fim — porque dar adeus a Porto Alegre é também dar adeus a minha mãe. Mas, ao invés do derradeiro “nunca mais”, eu me permita uma licença poética e encontre conforto no fato de poder dizer: “Até mais, até mais”.