Publicado 10 de Setembro de 2014 - 5h00

Assistia a um episódio do Carga Pesada, reapresentado em outro canal, quando ouvi a música tema. Nela fiquei pensando e meditando. Sem querer esnobar, pensei que talvez pudesse fazer uma adaptação dela para minha vida: “Eu conheço muitos palmos de cada religião / é só me mostrar qual a direção. / Quantas idas e vindas, meu Deus, quantas voltas / viajar é preciso, é preciso / Com a teologia sobre as costas / vou testando a fé, cortando o estradão. / Eu conheço todos os sotaques / dessas igrejas, as miragens / dos “milagres” as verdades / das ovelhas as vontades / Eu conheço as minhas debilidades / pois o pensar não me cobra o frete. / Por onde andei fiquei com saudades / a poeira é minha doutrina / Nunca misturei cifrão com missão / mas não nego que tive meus apertos / Coisas da vocação e do meu jeito / sou profeta no caminho e acho muito bom! "

No tacógrafo da vida já registrei coisas que me arrepiaram por ter me maravilhado e emocionado, como também por ter ficado estarrecido. Quando acho que já vi tudo, pasmo fico com mais uma novidade.

Se tivesse que classificar as maiores derrapadas que já vi e ouvi, acho que a maior parte cairia no item da hermenêutica bíblica. Gente que “interpreta” o texto, sem ao menos conhecer a gramática e, menos ainda, a história que os textos relatam. Certa feita ouvi de um pregador que “sinagoga era o escritório de Jesus” e me contaram de um que aforamava que Jesus era músico porque “ele tocou o esquife.”

É um absurdo ler a Bíblia sem considerar, e seriamente, que ela é um texto histórico que abrange mais de dois milênios, com culturas, idiomas, sociedades, modelos políticos, economia e os mais variados possíveis. Os escritores eram narradores dos fatos que viveram e os escreveram para as pessoas do seu tempo. Não havia neles a intenção de que seus escritos fossem lidos milênios mais tarde.

Ler o que escreveram e entender o que disseram no seu tempo para os leitores e/ou ouvintes contemporâneos, é a primeira tarefa do pregador bíblico. Se ela já se constitui em algo monumental, traduzi-la para os ouvintes e leitores do século XXI é algo ainda mais difícil.

Não afirmo com isto a impossibilidade de se ter na leitura da Bíblia uma lição que se possa aplicar aos nossos dias. Mas, dada à natureza da tarefa, ninguém, absolutamente ninguém, pode arvorar-se como conhecedor da verdade absoluta acerca de textos ou de toda a Bíblia. Toda interpretação que se faça é aproximativa, relativa, porque é a visão de alguém hoje, olhando para trás com lentes as mais variadas e vendo nos textos o que gostaria de ver.

 

Nada mais crasso que afirmar a interpretação particular como verdadeira e quem o faz dá provas explícitas de ignorância e insensatez.

Na boleia da vocação sigo as estradas da vida e da comunhão. Há vezes que não preciso trilhar um caminho para saber que é esburacado: a experiência me dá o discernimento e a tolerância, mas também a veemência na denúncia das concessionárias do Reino que cobram pedágios a cada quilômetro.