Publicado 08 de Setembro de 2014 - 18h03

Por Gustavo Abdel

Filhos de Solange, morta no acidente entre trem e ônibus em 2010 em Americana

Janaína Ribeiro/ANN

Filhos de Solange, morta no acidente entre trem e ônibus em 2010 em Americana

Após quatro anos do acidente entre um ônibus da VCA (Viação Princesa Tecelã) e um trem na passagem da linha férrea da região central, em Americana, nenhum familiar ou vítima recebeu a indenização. Dez pessoas morreram na tragédia.

 

As ações judiciais para pagamento por danos morais e lesão corporal ainda tramitam na Justiça, com valores entre R$ 13 mil e R$ 200 mil, sem previsão de desfecho.

 

 

 De acordo com a oficial da 1ª Vara Cível de Americana, Margareti Milani Fassoli, os processos ainda estão em andamento sem possibilidade de definição de prazo para conclusão.

  

No momento da batida havia 25 pessoas no ônibus, que foi atingido por volta das 23h45 pelo trem de carga em uma passagem de nível no Centro, arrastado por cerca de 100 metros e partiu ao meio.

 

A composição, que pertence à ALL (América Latina Logística) e levava milho, soja e açúcar ao Porto de Santos, tinha quatro locomotivas e estava com 77 vagões, cada um pesando 100 toneladas.

Para a autônoma Maria José de Oliveira Gund, de 52 anos, o sinal sonoro foi acionado e mesmo assim o motorista do ônibus, Alonso de Carvalho, de 55 anos, foi irresponsável. “O sinal disparou e mesmo assim ele tentou atravessar”, recorda.

 

O motorista sofreu fraturas nas pernas e nos braços. Ele foi condenado em 2012 a seis anos e nove meses de detenção.

De acordo com o advogado do motorista, Renan Nogueira Farah, em abril a Justiça condenou Carvalho ao pagamento de dois salários mínimos e quatro anos e meio de prestação de serviços comunitários. “Ele perdeu uma das nádegas e três dedos e está com uma infiltração na bacia. Caminha com dificuldade, fora o trauma psicológico. Portanto, ele vai cumprir os trabalhos comunitários desde que estejam adaptados às suas dificuldades”, disse o advogado.

  

No acidente, morreu Solange Lindaura Moreira da Silva, de 38 anos, mãe de quatro filhos. “O que mais faz falta quando chego em casa é a alegria que ela transmitia para a gente, e das risadas altas”, diz o filho Matheus Henrique Ribeiro, de 19 anos.

Matheus e os três irmãos ainda têm esperança de receber a indenização, mas diz que nada vai suprir a falta da mãe. “Uma semana antes ela teve um sonho, como se estivesse indo embora dessa vida”, relembrou Matheus, que estava com Solange, na época com 38 anos, no momento do acidente. “Ela não deixou eu sentar do lado dela e pediu para que eu me sentasse atrás. O trem acertou ela e eu fiquei com a mão presa nas ferragens”, relembra.

 

As empresas

 

 

No caso do acidente em Americana, a medida encontrada após a tragédia foi a colocação de um portão de segurança que é fechado manualmente quando o trem se aproxima pela passagem de nível.

O operador dessa proteção é o funcionário Marcos Roberto Granzotto, de 41 anos, que toda vez que o sinal de aproximação dos vagões é acionado ele precisa atravessar o trilho e fechar o portão. “Tem motorista que mesmo assim quer passar e joga o carro em cima de mim, para eu largar o portão e ele passar”, relata.

Por turno ele faz pelo menos 15 vezes fechadas de portão.

A concessionária ALL esclarece que a colisão em Americana aconteceu após o ônibus não respeitar a sinalização da passagem de nível e avançar sobre a linha férrea no momento em que o trem se aproximava. “É importante ressaltar que, de acordo com o Código Nacional de Trânsito, a linha férrea é sempre preferencial, e é infração gravíssima transpô-la sem parar”.

Segundo a empresa serviços de manutenção na via como nivelamento mecanizado, troca de trilhos e troca de dormentes são realizados com frequência. “Em Americana, a concessionária executou, em 2014, obras de sinalização ativa e passiva em passagem de nível (PN) e instalação de passagem de nível para pedestres (PNP), além de doar à prefeitura o motor para automatização da cancela da PN da rua Carioba”, detalhou.

A concessionária garantiu que realiza “campanhas de segurança nos cruzamentos com a linha férrea na região para minimizar o risco de acidentes envolvendo veículos, pedestres e trens, além de palestras educativas em escolas próximas à malha”.

 

A Viação Cidade de Americana (VCA) foi procurada para comentar o assunto, mas a assessoria de imprensa da empresa informou que não iria se manifestar, uma vez que as ações ainda estão em andamento. “É política da empresa, pois ainda está tramitando”, informou a assessoria de imprensa.

 

 

Trilhos urbanos

 

Os constantes acidentes na malha ferroviária que corta os municípios da Região Metropolitana de Campinas (RMC) reforçam a necessidade de retirada dos trilhos das áreas urbanas.

 

Entretanto, em reuniões realizadas pelo Conselho da RMC já se descartou realizar pressão para o fim da linha férrea por considerar que os custos dessa operação inviabilizam o projeto.

No trecho de ferrovia sob concessão da ALL dentro da RMC passam 700 vagões por dia, transportando principalmente soja e açúcar, a uma velocidade de 60km/h.

 

 

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Gustavo Abdel