Publicado 06 de Setembro de 2014 - 11h06

Pais e alunos da sala especial em escola da Vila Nova Teixeira

Leandro Ferreira/ AAN

Pais e alunos da sala especial em escola da Vila Nova Teixeira

O risco de fechamento da única sala de aula especial do Estado para crianças com paralisia cerebral em Campinas deixou temeroso um grupo de 15 famílias que depende do serviço.

 

A Escola Estadual Sophia Velter Salgado, na Vila Nova Teixeira, tem professores treinados especialmente para esse trabalho.

A possível desativação da sala é parte do projeto do governo que prevê a inclusão de crianças e jovens com deficiência em escolas comuns da rede, onde elas passariam a conviver e aprender com os demais alunos.

 

Especialista em psicologia da educação consultado pelo Correio afirma que a inclusão é importante, mas as salas precisam ter estrutura e profissionais bem treinados para que portadores de deficiência sejam beneficiados com o programa.

Os pais temem que os filhos com deficiências como paralisia infantil (poliomielite) sejam deixados de lado e não interajam, como ocorre na sala especial.

 

Eles acreditam ainda que os jovens poderiam correr riscos em um ambiente padrão. A maioria deles não fala, precisa de ajuda para comer e até para ir ao banheiro.

 

Na sala especial, eles têm professora e três cuidadores por jovem, bancados pelo Estado.

Há duas semanas, os pais participaram de uma reunião com a diretora da escola e com a Diretoria Regional de Ensino Leste, que explicou o processo de mudança.

 

 

Segundo a Secretaria do Estado da Educação, as crianças passarão por uma reavaliação para ver se conseguem se adaptar a uma sala de aula normal.

 

O projeto de inclusão é baseado em uma lei estadual e acompanhado pelo Ministério Público.

A Escola na Vila Nova Teixeira tem a única sala especial da cidade — todas as outras foram fechadas ao longo do tempo. Ela tem rampa de acessibilidade com piso tátil, sala ampla de aula para alunos com deficiência, medicamentos e professores treinados para a tarefa.

Único aluno da classe que se comunica, Michael Gomes, de 27 anos, se considera o “orador” da sala. Há mais de cinco anos na escola, ele é responsável por acolher alunos novos e ajudar nas atividades.

 

“Eu já aprendi muito. Fiz várias amizades. Muitos não falam, mas têm sensibilidade e me reconhecem”, disse.

 

Sua mãe, Aparecida Souza Gomes, de 61 anos, afirmou que o desenvolvimento oral e motor de Michael melhorou muito na classe especial.

 

“Aqui eles têm mais atenção. Acho a inclusão importante, mas o Estado não tem aparato para isso. Temos uma sala especial que funciona. E querem tirar isso de nós”, afirmou Aparecida.

A jornalista Fernanda Terribile, de 42 anos, disse que precisou vencer seus próprios medos para levar seu filho Danilo, de 15, à escola.

 

Depois que conheceu os profissionais e os outros jovens que estudam no local, se sentiu confiante para matricular Danilo.

“Ele não fala, não anda, tem uma traqueostomia onde precisa ser acoplado o respirador com frequência e tem deficiência mental. Sei que ele não será alfabetizado. Mas ele está evoluindo muito com o contato social. Fica mais calmo, mais alegre”, contou Fernanda. 

A jornalista disse, porém, que não deixaria seu filho frequentar uma sala de aula comum pois acredita que ele não teria o mesmo cuidado.

 

A bailarina Raquel Firmino de Andrade, de 47 anos, tem dois filhos que estudam na classe. Segundo ela, os dois criaram um vínculo com os colegas e professores e quebrá-lo seria um “sofrimento”. “O Estado tem poucas escolas que funcionam. Não faz sentido eles quererem acabar com um serviço que é bom.”

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo informou que os alunos da sala especial estão sendo avaliados individualmente para o colégio saber se eles têm condições de ir para classes comuns. Ainda segundo a pasta, não há uma decisão sobre o fechamento da sala.

 

Sem estrutura 

 

O mestre em psicologia da Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Rogério Gomes Neto avalia que a política de inclusão do Estado, que deve abolir progressivamente salas especiais, aposta nos benefícios que portadores de deficiência têm ao serem estimulados por outros alunos, e vice-versa.

 

Porém, esta inclusão inclui um aparato complexo de profissionais e equipamentos e são nessas situações que os casos devem ser analisado individualmente.

 

Instituindo o programa como obrigatório, o governo repassou a responsabilidade de capacitação a professores e diretores dos colégios, e nem todos têm recursos humanos, técnicos e financeiros para isso, acredita.

 

“É uma lei que quer tratar pessoas com deficiências diferentes da mesma forma, o que nem sempre é possível. Um deficiente visual necessita, por exemplo, apenas de um aparato tecnológico. Mas um jovem com paralisia cerebral necessita de muito mais. Em um contexto como este, não faz sentido acabar com uma classe que já funciona bem.”