Publicado 07 de Setembro de 2014 - 5h00

Por Delma Medeiros

 

Um dos últimos heróis da resistência da antiga boemia da região conhecida como Setor, no Cambuí, o prédio onde funcionava o Caicó, também recebeu sua pá de cal.

 

O grande terreno, que abrigava, nos áureos tempos do Setor, os bares Caicó, Ilustrada e Bar do Meio, está todo murado e com uma placa de "futuras obras" , da Jfonseca Construtora, que não informou o quê exatamente será construído no local.

 

Mas, comentários extra-oficiais dão conta que o local abrigará um pequeno shopping ou um prédio de salas comerciais, coisas bem distintas de seu passado boêmio.

 

Considerando o quadrilátero expandido até a esquina das ruas Coronel Quirino com Benjamin Constant, o Setor somava pelo menos 12 bares. Desses, apenas dois continuam em funcionamento, o pioneiro e emblemático City Bar e o Spaguetti, antigo Scooby.

A relembrar, a partir do Caicó e fazendo o chamado giro do Setor, tinha o Ilustrada - um banho de bar, Bar do Meio (depois Olhar 44), Candeeiro (depois Sentimento), Scooby (hoje Spaguetti), City Bar, Natural, Bacamarte, Paulistinha, Contramão, Zanzibar e Bate-Papinho, famoso pelos caldos quentes que servia madrugada adentro.

 

O Setor reunia boêmios, intelectuais, estudantes. Nada era combinado, como os bares eram muito próximos, todos se encontravam, num ou noutro. Era comum também que a galera se reunisse, fosse informada de alguma festa em república e seguisse em bando para o local. O convite era um mero detalhe.

 

Nelson Camargo Júnior, o Zincão, lembra que abriu o bar homônimo no local onde funcionava sua loja de calçados artesanais, em dezembro de 1983. "Começou como uma sorveteria, com a loja anexa. A história não deu certo, mas ficou um freezer com algumas brahmas. Quando a marca de sorvetes levou o freezer, comprei outro e enchi de cerveja. Vendia seis caixas de cerveja por dia. Era mais gostoso e mais lucrativo que a loja e fiquei só com o bar" , diz Zincão. "Era só uma sala. Na inauguração, os comes e bebes estavam prontos, mas as mesas e cadeiras ainda não tinham chegado. As mesinhas, que eram montadas no jardim, chegaram com os convidados já na casa. O caminhão parou e os próprios clientes se encarregaram de tirar e montar as mesas e cadeiras" , conta Zincão.

 

Depois de algum tempo ele se tornou sócio do Tadeu Costa no Ilustrada. "Toquei os dois bares por alguns meses, depois vendi minha parte do Zincão, que mudou o nome para Caicó." Logo depois Camilo Chagas se juntou à dupla. "Coisa de um ano depois houve uma crise de cerveja. Ficou tudo complicado. Para podermos cobrar mais tínhamos que oferecer algo mais e passamos a ter música ao vivo" , lembra.

 

Além dos grupos fixos, de quarta a domingo, Camilo teve a ideia de trazer músicos de São Paulo no início da semana e criou o projeto Segunda-feira.

Os garçons

Para o fotógrafo Adriano Rosa, que durante o período de aulas, trabalhava como garçom no Ilustrada, os shows forneceram um vasto material, que ele guarda com carinho até hoje.

 

"Mesmo quando não estava trabalhando, ia assistir aos shows e fotografava. Tudo analógico, mas estou escaneando o material. É uma viagem no tempo", comenta.

 

Além de Rosa, vários jornalistas, estudantes na época, foram garçons no Ilustrada, como Marcelo Andriotti e Marcelo Pereira, hoje, respectivamente, editor e editor executivo do Correio Popular; e Marcelo do Canto que trabalha com assessoria.

 

No Ilustrada, durante seu período de garçom, Marcelo do Canto, descobriu sua veia de cantor. Numa brincadeira da faculdade, criou o cantor brega Mário Lúcio.

 

A princípio seria uma apresentação, mas o sucesso foi tanto que ele seguiu fazendo shows com Mário Lúcio e Los Lúcios. E os que não trabalhavam, também "batiam ponto" no Setor.

 

Em plena ditadura militar

 

"Posso dizer que o Setor me forjou - para o bem ou para o mal. Desde os tempos de militância de esquerda, quando muitas das reuniões do movimento estudantil tinham a ousadia de rolar em mesas de botecos, sob os focinhos da repressão - foi no City Bar que nasceu a Associação dos Secundaristas de Campinas (ASC), que viria a ser a semente para o renascimento da União Campineira dos Estudantes Secundaristas (Uces)" , lembra o jornalista Carlos Lemes Pereira, o Carlãozinho.

 

"Mas também tinha o lado melancólico, pela inevitável efemeridade que impera no mundo boêmio. Tive namoros e até casamentos que começaram, chafurdaram e acabaram melancolicamente no Setor", diz Carlãozinho.

 

"Eu costumava brincar que a água com que lavavam nossos tênis na triste hora da saideira, levava também para os bueiros nossas ilusões e egos."

O empresário Roberto Caruso também lembra com carinho daqueles tempos. "Sempre morei no Cambuí e vinha direto ao Setor, frequentava todos os bares. Hoje, o Cambuí continua "o bairro" quando se pensa em barzinhos, mas mudou muito, está tudo espalhado. A lei seca também colaborou para reduzir o movimento nos bares. Sinto saudades daquela época", afirma.

Carlãozinho lembra que haviam brigas no Setor, mas a violência não era tão parte do cenário como hoje. "O mais sério que me lembro é de um garçom do Paulistinha que matou a tiro um morador de rua, o que decretou o fim do boteco. E talvez do Setor Inteiro." 

 

Giro no Setor

 

O giro do Setor em geral começava no City Bar, passava pelo Natural, Paulistinha, Caicó, Ilustrada, Candeeiro e por ai afora. Terminava no Bate-Papinho, com um caldo quente, ou com os garçons do City lavando os pés dos frequentadores mais insistentes. No City, as saideiras eram sempre tomadas do lado de fora, enquanto os funcionários empilhavam as cadeiras para a lavagem do bar.

 

Região dos bares

 

Pelas proximidades do Setor, outros bares foram marcantes na época, como Armazém, na Moraes Salles; Adega dos Arcos e Depois Água Furtada; na Júlio de Mesquita; Metrópolis, na Ferreira Penteado; Luz Del Fuego, na Rua São Pedro; e Café de La Recoleta, na sala Carlos Gomes do Centro de Convivência Cultural.

 

Devido à proximidade do teatro do Centro de Convivência Cultural e aos tipos excêntricos que frequentavam o pedaço, a região dos bares começou a ser chamada de Broadway. Inconformado com a "colonização", o publicitário Darius Augustus Corbett, o Guto Corbett, passou a chamá-la de Setor. Entre suas várias atividades, Guto fornecia jogos americanos de papel para bares e restaurantes do Cambuí e aproveitou a produção para divulgar a ideia. A brasilidade venceu. Poucos lembram da Broadway, mas quem viveu o período jamais se esquece do Setor.

 

Nomes de peso no Setor

 

A ideia surgiu meio na brincadeira. Camilo Chagas foi a São Paulo assistir um show do Arrigo Barnabé, no auge da chamada Vanguarda Paulistana. Depois da apresentação foi falar com ele e comentou que pensava em convidar músicos paulistanos para apresentações em Campinas no começo da semana.

 

Arrigo gostou da ideia e já marcaram o primeiro show. Ele também passou contatos de outros músicos da Vanguarda e o Projeto Segunda-feira se tornou um sucesso.

 

Se apresentaram no projeto nomes como Cida Moreira, Vânia Bastos, Paçoca, Tom Zé, Fortuna, Walter Franco, Jards Macalé, Capenga, Celso Adolfo, Paulinho Nogueira, Vital Farias; além dos sambistas Aniceto do Império, Nelson Sargento, Geraldo Filme e Boca Nervosa.

 

Da prata da terra, passaram por lá os grupos Soma, Bons Tempos, Coral Latex, Pezão, Ding Dong, Raul de Barros, Montone, Sergio Carraca, Zeza Amaral, Doc Miranda, Kastora, Ricardo Matsuda, Isa Taube, Chiquinho do Pandeiro, Tatiana Rocha, Carô, Marcílio Menezes, Bruno Assunção, Alex Guidice e muitos outros.

 

Os grupos que se apresentavam com regularidade renderam dois LPs do bar: o Ilustrada volume 1, de MPB, com músicas autorais; e o volume 2, da fase roqueira do bar.

 

"Foi uma época de ouro da boemia campineira. Hoje não tem mais essa aura boêmia. A música popular perdeu muito com o fim desses bares", lamenta Camilo Chagas. O Ilustrada se manteve na ativa até 1995. "Fechei porque o dono do prédio pediu o imóvel."

 

Tomá na Banda

 

A Tomá na Banda, a pioneira das bandas modernas, já não tão nova assim - completa 30 anos de desfile em 2015 - saiu pela primeira vez meio no susto.

 

"A inspiração foi a Banda de Ipanema, no Rio. O Carnaval de Campinas sempre foi muito irregular e ficamos pensando em como melhorar a coisa. Ai surgiu a ideia de criar a banda. Dez anos depois, surgiu a City Banda, as duas que ainda permanecem", lembra Camilo Chagas.

 

O fotógrafo Carlos Bassan, que já era profissional da imprensa e frequentador assíduo do Setor, também registrou imagens que hoje evocam saudade. Das muitas histórias que têm para contar, Bassan lembra de quando "raptou", a rainha da Tomá na Banda.

 

"Acho que foi no segundo ano do desfile. Eu sequestrei a Rainha da Tomá na Banda. O Camilo ficou louco da vida comigo. Levei a rainha de volta com uma hora de atraso. E o bloco pode sair com uma mulata de cair o queixo. Mas o que fiz com ela durante o sequestro não conto para ninguém", provoca. Já Carlãozinho entrega que foi um "rapto" até inocente. Ela ficou tomando cerveja com eles no City Bar e perdeu a hora do desfile, até ser "resgatada" pelo pessoal do bloco.

 

Ponto de Vista

Marina Schneck

Marina Schneck - Ponto de Vista sobre o fim do último reduto do Setor, no CambuíTenho 53 anos e nos anos 80 e 90 frequentei muito o chamado Setor, uma quadra de vários bares no Cambuí. Na verdade frequento ainda hoje, mas sem querer ser saudosista, naqueles anos aquele lugar era uma festa, onde chegava-se sozinho e inevitavelmente em pouco tempo os grupos se juntavam e se trocavam. E era diversão a noite toda, até 4h ou mais. Quase que diária! Hoje a gente chega lá, conhece duas ou três pessoas. Bebo a minha cervejinha assim mesmo, mas fecha à 1h."

Escrito por:

Delma Medeiros