Publicado 06 de Setembro de 2014 - 11h35

Por João Nunes

Se eu Ficar

João Nunes

Se eu Ficar

Na lista dos mais vendidos da revista Veja da semana passada A Culpa é das Estrelas (John Green) aparecia em primeiro lugar, seguido de Se eu Ficar, da americana Gayle Forman. O primeiro gerou o filme homônimo de Josh Boone, que fez mais de seis milhões de espectadores só no Brasil neste ano. O segundo, de R. J. Cutler, estreou nesta semana no País.

Ambos foram feitos para chorar, mas sejamos justos, eles têm qualidades – o primeiro mais que o segundo, embora ambos apostem na tragédia como forma de se aproximarem dos adolescentes, o público alvo. E, nos dois casos, a tragédia tem o fim único de gerar a catarse que virá; neste sentido, manipulam emoções, pois a morte está onipresente do começo ao fim. Se tratada como algo natural que é, não haveria nenhum problema. Entretanto, os dois filmes a usam unicamente para emocionar.

Quem não se sente tocado com o drama da morte, em especial se há uma promissora história de amor sendo interrompida? Incomoda muito o modo como os dois livros adaptados ao cinema usam e abusam desse artifício como forma de comover a plateia.

Mas, assim como em A Culpa é das Estrelas, em Se eu Ficar, algumas sofisticações no enredo e mesmo na condução o torna menos desonesto em relação às intenções. Veja-se o caso da protagonista Mia (Chloe Grace Moretz), apaixonada por violoncelo. Colocar a música clássica no primeiro plano de uma história adolescente por si só traz alento a um filme que poderia ser apenas uma bobagem.

Mia, de 17 anos, só ouve música clássica e toca Bach (em que pese em insistir no clichê de usar a Suíte N. 1 para violoncelo, uma das obras mais repetidas do compositor no cinema; na mesma sequência há suítes tão belas quanto ignoradas, mas tudo bem).

Sim, há um quê de didático neste elogio ao enredo, mas muitos jovens acham que o mundo foi inventado ontem e desconhecem a dimensão de um compositor como Johann Sebastian Bach (1685-1750) que, inserido num romance juvenil não só valoriza a história, mas tem esse efeito didático – que sirva para alguma coisa, afinal.

Assim, vemos em Mia uma sensibilidade especial que fará todo o sentido dentro da história – até mesmo o desfecho será guiado por uma obra clássica capaz de despertar nela o instinto de sobrevivência. E olhe que o contraponto dela, o namorado Adam (Jamie Blackley), tem uma banda de rock; porém, se apaixona por ela após ouvi-la tocar violoncelo na escola e que, como músico, também sabe valorizar o clássico.

Claro que estes dados servem como arcabouço de uma história bem mais simples. Eles se apaixonam, mas as respectivas carreiras aparecem como impedimento para o namoro. E aí vem a tragédia familiar após grave acidente de trânsito. Bem, os problemas começam a aparecer, então. Há dois deles sérios.

O primeiro é a visão espírita ou espiritualista que o filme imprime. Mia, após o acidente, vai aparecer como “espírito” vagando pelo hospital, assistindo a todo o desenrolar da tragédia. Como tal, ela acompanha a dor dos familiares, amigos e namorado sem poder fazer nada. E, clichê do clichê, há uma luz que a chama o tempo todo – a tal luz que muitos que, supõe-se, tiveram contato com “o outro lado” vêem.

O segundo, não se sabe o porquê, uma enfermeira resolve ser espécie de anjo da guarda de Mia e repete várias vezes que a garota tem o poder sobre a própria vida. Ela pode escolher ficar viva (daí o título) ou se deixar ser atraída pela tal luz e partir.

Mesmo para quem não crê em Deus fica difícil imaginar que a menina tenha tamanho poder a ponto de ser capaz de uma escolha destas. Ora, quem decide sobre a vida e morte? Bem, diante da tragédia eu também renuncio a vida – como se isso fosse possível. Ou, há razões para seguir vivendo e eu vou viver.

A fantasia sobre o suposto poder que teríamos até serve (para quem se interessa) como auto-ajuda para os vivos, algo como, diante dos embates terríveis do cotidiano nós escolhemos entre seguir em frente ou nos entregar.

Até seria factível se estivéssemos dispostos a ouvir tais lições da auto-ajuda. Contudo, no caso de Mia estamos falando sobre vida e morte e ninguém possui tamanho poder de decisão. Só no livro de Gayle Forman – e no filme.

Apesar de tudo, Se Eu Ficar deixa saldo positivo porque a direção não abusa do direito de explorar demasiadamente a dor das pessoas, assim como reserva um desfecho seco e sem exageros. Sim, há apelações, pois o objetivo é fazer o público chorar. No entanto, ele cresce exponencialmente quando aposta nas sutilezas e na presença da música clássica não apenas como deleite estético, mas como parte do arco dramático.

Escrito por:

João Nunes