Publicado 31 de Julho de 2014 - 5h00

Por Antônio Contente

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É mesmo verdade que a internet abriu espécie de larga vereda para o trafegar das paixões. E paixões, vocês sabem, assemelham-se às aves que, voando ao nosso redor, nunca são as mesmas de ontem; todavia, são as mesmas de sempre.

 

Nessas condições lá um dia, por um desses encontros espaciais que a web permite, Pamoni se viu trocando mensagens com Gardênia. Num primeiro momento vaguearam sobre assuntos triviais, do dia a dia. Troca de ideias em cima de temas culturais como cinema, leituras, teatro, e, até, gastronomia.

 

Assim, numa noite de chuva armada para abrigar nostalgias, o homem deu um toquinho ao escrever algo mais ou menos assim: “Sinto que você, de alguma forma, começa a fazer parte da minha vida”. A resposta não tardou: “Que bom, pois isso mostra que num pequeno conhecimento há solo para, quem sabe, grandes caminhadas”. Logo em seguida, ele: “De mãos dadas”? E ela: “Quem sabe? Quando nada seja, para evitar tombos em algumas pedras ou buracos nos caminhos”...

 

Mais algumas semanas, num novo bate papo, ele especulou como seria vê-la.

 

— Mas assim, sem mais nem menos? – Ela tamborilou no teclado.

 

— Ué, você sabe quanto tempo faz que nós papeamos?

 

— Dois meses?

 

— Engano seu, seis; meio ano.

 

Assim foi que os laços acabaram por se estreitar. E se alguma sombra pairava diante de tal perspectiva, Gardênia é quem colocou que tinha medo de ser vista e não aprovada.

 

Ele respondeu nos conformes: “Esse medo não é só seu, querida”. Pronto, a utilização de tal adjetivo de repente abriu entre os dois novos rumos. Tanto que em outra noite de chuva propícia ao aconchego, ele se despediu dela com um “até amanhã, meu amor”. E o que acabaram acertando, para evitar surpresas, foi uma troca de fotografias. Que ocorreu sem que ambos experimentassem sustos.

 

Na continuação as coisas foram se ajeitando para que, afinal, houvesse o encontro. Num primeiro momento ele disse que gostaria de leva-la à “Casa da Lua Crescente”. Ela perguntou do que se tratava, porém ele limitou-se a dizer: “É um lugar que acalenta sonhos, magias, sentimentos, navegações sobre inúmeros horizontes”.

 

Ela respondeu com um “meu Deus, quanta coisa, que maravilha”... E tudo se adensou ainda mais pela repetição do nome que tinha algo de surreal imagem. Com ele a soprar sempre que gostaria de leva-la à tal casa com plenilúnios em perspectiva.

 

Finalmente, acertaram se ver no entardecer em discreto café no melhor âmago do Cambuí. Ele chegou primeiro, pediu uma água. Não muito depois se vira e vê entrando a criatura que conhecia de fotografia. Curvou-se, ao murmurar:

 

— Você é a síntese mais que perfeita do encanto não só desta; mas de todas as tardes...

 

— Ora... – Ela piscou intensamente.

 

Olhavam-se e integravam-se num daqueles papos em que cada palavra era a busca de reconhecimentos. Que se poderiam ter sido até grandes nas muitas mensagens escritas através da internet, de repente, no status dos olhos nos olhos, era como se nunca tivessem trocado uma frase sequer. Finalmente, duas horas depois, com a noite já formada, Gardênia diz:

 

— Pois é, cada um de nós tem vida plena de histórias...

 

— Sim — ele concordou — meus quatro casamentos, sua viuvez, seus muitos filhos, meus nenhum, e tantos netos de sua parte enquanto eu não faço a menor ideia do que é ter isso.

 

— Exato — ela sorri — aos 80 anos, 160 na soma das nossas idades, a única saga a nos envolver, e sobre a qual podemos navegar, é esta.

 

— Que poderia ter o título de “O Encontro”, não é mesmo?

 

Foi Pamoni quem levantou, para apontar:

 

— Vem, vou te levar ao teu carro.

 

— Pode ser o ponto de táxi...

 

Cada um tomou seu rumo e nunca mais trocaram mensagens ou se viram. Todavia a história só terminou um mês depois. Quando, a caminho de uma cidade vizinha, Gardênia viu o luminoso ao parar num posto na beira da estrada, por estar sentada no lugar do carona ao lado do filho com nora e netos no banco de trás:

 

— Que letreiro é aquele? — Ela pergunta.

 

— “Casa da Lua Crescente”? — O moço murmura.

 

— Sim, lindo nome; o que é?

 

— Ora, mamãe, é um motel.

 

Ela não disse mais nada e coçou a ponta do nariz. Pensa, quase alto: “Velhinho sacana”. Mas sorriu; como se houvesse na acusação uma espécie de cumplicidade...

Escrito por:

Antônio Contente