Publicado 01 de Agosto de 2014 - 5h00

CECILIO

CEDOC

CECILIO

Então, todo encantado, o velho apresentou-nos a moça voluptuosa, a que, antes, chamaríamos de calipígia, a de nádegas formosas. Sorridente, feliz, ele falou: “Esta é minha namorada.” Entreolhamo-nos, os amigos. E um de nós — não revelo qual ou quem — sussurrou: “Desde quando moça de programa é namorada?” Enfim...

De minha parte, já não me importo. Pois, não entendo mais nada e, aliás, descubro nunca, antes, também ter entendido. Poderia, até mesmo, consolar-me com aquela reflexão do filósofo Terêncio: “Sou humano, nada do que é humano me é estranho.”

Acontece, porém, que — apesar de nada entender — ainda me espanto. Essa questão de namoro é-me confusa desde a infância. As novas gerações, agora, podem pensar tudo ter sido certinho, corretinho — mas é um ledo engano. “La même chose”, apenas em contextos, estilos e com pessoas diferentes, em outras épocas mas com as mesmas paixões.

Sempre me intrigou, por exemplo, saber que meus pais — no ano de 1930 — fugiram para se casar. Ambos com pouco mais de 18 anos. Proibidos de namorar pelos pais — o dela, muito rico; o dele, mascate pobrezinho — arrumaram as malinhas, minha mãe pulou a janela, amigos ajudaram-nos na fuga e lá se foram, eles, em busca de viver um grande amor.

Em 1930, dois quase meninos fugindo para se casar? Que raio de sociedade moralista era aquela? Eles nos contavam a aventura, divertiam-se ao lembrar, beijavam-se diante das recordações e eu ficava perguntando-me: “Ela se casou virgem ou os dois já...?” Nunca me responderam. Mas havia um argumento forte: a certidão de casamento e outra, a de nascimento de minha irmã, a primeira. Ela nasceu um ano depois da fuga... E isso parecia absolver os amantes. Ou namorados?

Na verdade, na verdade, nunca consegui distinguir, mais claramente, namorados de amantes. Pois a simples palavra amante me encanta. Ela é dúbia. Amante é a pessoa que ama, que tem amor, o amado, a amada. Também, namorados. Por outro lado, tem a significação desagradável, de “alguém que tem relação amorosa com pessoa casada.” Mas, mesmo assim, sendo adúltero, por que não pode ser um grande, um imenso, um enlouquecido amor?

A diferença de tudo — acredito, eu, agora — está na fascinante liturgia amorosa, no ritual refinado, requintado e dissimulado do namoro. Antes, namorar era uma arte. E que arte, sofrida arte! Quase sempre, começava “quadrando jardim”. As moçoilas em flor passavam e os mancebos admiravam-nas.

Trocavam-se olhares, estranhamente tímidos mas fogosos. Aliás, quanto mais tímidos fingissem ser, mais fogosos se revelavam. Machado de Assis falou de “olhar de Quaresma”. O que, de mais misterioso, pode haver?

Um piscar de olhos. Ela, com um leque no rosto, usando códigos amorosos. Depois, um bilhetinho. Um sorriso de concordância. Um primeiro encontro, ela com a amiguinha ao lado. Pernas bambas, corações batendo na garganta. Iniciavam-se, então, a liturgia e o ritual. Um mês depois, no escurinho do cinema, o dedinho dele — o da mão esquerda — tocava no dedinho dela, o da mão direita.O choque, como se um raio atingisse o peito! Com os dedinhos, começava-se, efetivamente, uma história de amor.

Segundo passo: convencer a amiguinha a dar um sumiço por alguns minutos. Então, pegava-se na mão da menina, emoção tão forte que quase levava ao desmaio. Suadas, as palmas das mãos se encontravam. Suores de emoção, de susto, de aventura. Daí, as brincadeiras dançantes, bailinhos nas casas de amigos, com os pais sempre presentes. Até que — após meses de namoro — chegava-se ao que seria o ápice ou o início dele: um beijinho no rosto.

A partir daí — ó, meninos de agora — o fogacho ia-se tornando fogaréu. Alma, corpo e espírito pegavam fogo. E os moços enlouqueciam. E ele ia conversar com os pais dela, pedindo permissão para namorar. Concedida, o prazo para voltar à casa ou para nela ficar era tirânico: 22 horas! Tão pontualmente que, faltando um minuto, pigarros paternos anunciavam o caminho da porta.

Até hoje, não sei se os pais eram tolos ou fingiam sê-lo. Pois bastava que eles dormissem e lá ia o moço apaixonado saltando a janela do quarto da amada. Em absoluto silêncio. Ladrão competente que mergulhava nos lençóis para furtar bocados de amor. E assim ia, até o altar. Onde e quando, toda a orgulhosa, a moça se vestia de branco anunciando, ao mundo, que se casara virgem... E todos acreditavam.

Hoje — pelo que sei — moço e moça se encontram em balada, vão para o motel, festejam e, logo pela manhã, se olham e perguntam-se: “Qual é seu nome mesmo?” Não mais estranho, mas me espanto. Qual é a graça disso? Modéstia à parte, prefiro a antiga dramaturgia de um amor litúrgico e ritualístico. Quem conheceu não quer outra.