Publicado 03 de Maio de 2014 - 19h05

Em Campinas, quem aprecia o som único do órgão de tubos pode ouvi-lo quinzenalmente na missa das 10h de domingo na Basílica Nossa Senhora do Carmo, acompanhando o coral Vozes do Carmo. “O órgão da Basílica do Carmo é uma exceção no cenário brasileiro. É um dos únicos em bom estado de conservação e em uso regular”, afirma o organista Júlio Amstalden. Ele explica que há cerca de 20 anos a Basílica mantém contrato com um técnico que faz a manutenção do instrumento duas vezes por ano. “Também se preocupou em contratar um músico especializado — eu, no caso — para para tocar o instrumento e criar o coral.” Campinas tem outros dois órgãos de tubos, o da Catedral Metropolitana e do Colégio Franciscano Ave Maria. O da Catedral tem um projeto de restauro desde 2003, que ainda não conseguiu sair do papel, de acordo com Ricardo Leite, arquiteto responsável pelo projeto de restauração da Catedral. O órgão de tubos da Basílica Nossa Senhora do Carmo foi construído em 1953 pela firma Tamburini, da cidade de Crema, Itália. Foi encomendado pelo Monsenhor Lázaro Mütschelle em obediência às exigências litúrgicas pontificais do período, que previam que todo templo católico deveria possuir um órgão de tubos, norma que deixou de vigorar depois do Concílio Vaticano 2. O instrumento da Basílica tem dois teclados manuais e um teclado pedal (para ser tocado com os pés). Possui ainda 15 registros sonoros que podem ser combinadas entre si, produzindo outros resultados acústicos. Em seu interior estão cerca de 936 tubos de diferentes tamanhos, que variam entre 2,70m e 10cm. “Os órgãos desta época são sinfônicos, criados para produzir um som similar ao de uma orquestra”, diz Amstalden. Para ele, apesar de estar com notas desafinadas e precisar de restauro, o órgão da Catedral é uma relíquia de grande valor artístico e histórico. “Não está muito claro como o instrumento veio para Campinas, mas a hipótese é que Ramos de Azevedo, quando construiu a Catedral, o tenha instalado no templo” , informa. O músico explica tratar-se de um órgão Cavaille-Coll, construído pelo francês Aristides Cavaille Coll em 1880, e montado para a inauguração da Catedral, em 1883. “Em uma equiparação, se fosse violino, seria um Stradivarius. É um dos poucos que mantém as condições originais e pode ser usado, mas está há muito tempo sem manutenção”, informa Amstalden. Ele conta que em 2003 foi criado um grupo gestor para elaborar o projeto de restauração do instrumento. “Reunimos um grupo de organistas, professores da Unicamp, profissionais do clero e do Conservatório Carlos Gomes para estudar como deveria ser o restauro. Consultamos especialistas internacionais, que nos indicaram os mais competentes organeiros franceses. Por fim o escolhido foi o ateliê de Denis Lacor. O projeto foi contemplado com a lei Rouanet de incentivos fiscais, mas não conseguimos captar os recursos necessários, R$ 1 milhão, na época”, explica o organista. Segundo Ricardo Leite, além da dificuldade de captar recursos, o projeto esbarrou no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “Os tubos seriam enviados para a França para os reparos e depois a equipe do ateliê viria reinstalá-los. Mas o Iphan não permite o envio de material artístico para fora do País”, informa. “Existem apenas seis órgãos Cavaille-Coll no Brasil e o da Catedral é um dos únicos que ainda funciona”, diz Amstalden. Já o Colégio Ave Maria guarda um órgão pequeno construído em 1950 por Henrique Lins, um alemão que veio para o Brasil como seminarista beneditino, acompanhou a montagem de um órgão na capela do bairro Helvetia, em Indaiatuba, e depois disso se especializou, tornou-se organeiro e passou a construir os instrumentos, similares ao da capela, prática que deixou de herança ao filho. De acordo com a irmã Salete Bolzan, diretora da escola, atualmente o órgão é usado esporadicamente porque a instituição não conta com um organista. “No início ele era muito usado nas celebrações litúrgicas. Hoje, por falta de organista, é tocado em ocasiões especiais. No ano passado tivemos dois concertos com o órgão, que está em perfeitas condições”, afirma. Outros locais da cidade que já contaram com órgãos de tubos são o Externato São João e a Igreja Sagrado Coração de Jesus.