Publicado 02 de Maio de 2014 - 19h05

Grandes eventos esportivos sempre foram aproveitados de modo político. No caso latino-americano, não foram poucas as Copas Mundiais cooptadas pelo poder. Exemplos: a Argentina de 1978, durante os anos de “chumbo”. A mesma Argentina, quando enfrentou a Inglaterra em 1986, com a derrota na Guerra das Malvinas travada na garganta. O Brasil de 1970, cuja vitória ajudou na propaganda do “milagre econômico” de Médici. E o Peru, também de 1978, que vivia o governo militar de Francisco Morales Bermúdez. É neste contexto que surge La Pena Máxima, novo romance do escritor peruano Santiago Roncagliolo, de 39 anos, lançado na Feira Internacional do Livro de Bogotá. “Um líder fascista sempre vai gostar de estar por trás de uma Copa do Mundo”, diz à Folha de S.Paulo o autor, um dos representantes da delegação do Peru, país convidado dessa edição do evento. O livro se passa em Lima durante os dias do Mundial na Argentina, quando o Peru começou com uma ascensão fulminante, mas foi derrotado numa polêmica goleada contra os anfitriões. Há suspeitas de que a ditadura argentina fizera pressão pela derrota e até de que poderia ter comprado os jogadores. Para a Argentina, era essencial ganhar, quando se vivia o auge da repressão que matou mais de 20 mil. “O resultado poderia ter sido algo armado, ainda que não existam provas. O que, sim, aconteceu foi que o governo peruano permitiu a ação da repressão argentina dentro de nosso território. Houve tortura, perseguição e mortes no meu país perpetrados por militares argentinos.” La Pena Máxima traz de volta o investigador Félix Chacaltana, protagonista em outras tramas, que deve averiguar um crime político que ocorre exatamente na hora em que o país está paralisado vendo uma partida. Radicado na Espanha há mais de oito anos, Roncagliolo sempre arma um retorno literário à América Latina. Seus dois livros lançados no Brasil, Abril Vermelho e A Quarta Espada, se passam no Peru dos anos da guerrilha do Sendero Luminoso. O Amante Uruguaio trata de um suposto “affair” do poeta espanhol Federico García Lorca no rio da Prata. O autor considera que a literatura do continente está se libertando do dever de defender uma postura contra o autoritarismo, como fez de modo intenso a geração dos anos 1960 e 1970. “Era importante que Gabriel García Márquez, Vargas Llosa, Carlos Fuentes dissessem coisas que não podiam ser ditas porque vivíamos oprimidos. Hoje não é assim, há mais liberdade, e isso se nota na variedade de temas, no cruzamento com gêneros diferentes.” (Da Folhapress)