Publicado 03 de Maio de 2014 - 9h00

Cena do filme 'Instinto Materno', com direção de Calin Peter Netzer

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Cena do filme 'Instinto Materno', com direção de Calin Peter Netzer

Há três momentos nos quais ouvimos música em 'Instinto Materno' (Pozitia Copilului, Romênia, 2013), filme de Calin Peter Netzer que entrou em cartaz em Campinas: no baile de aniversário de 60 anos da protagonista Cornelia (a ótima Luminita Gheorghiu), durante o ensaio de ópera em que recebe a notícia de que o filho se envolveu em acidente e, por fim, em café (música de fundo) no qual ela ensaia um suborno. No mais, incluindo a abertura e encerramento, o filme se desenrola numa atmosfera seca, dura e assustadoramente silenciosa.

A história pede tal abordagem, associada à claustrofobia das ações noturnas e dos lugares fechados habilmente fotografados por Andrei Butica e que criam clima de permanente suspense. Em um drama repleto de dor, percebemos as respirações e ouvimos os pequenos movimentos, além de outros ruídos dos personagens – como na vida, em que não existe o adorno da música.

A família de Cornelia personifica a classe social rica da Romênia acostumada aos arranjos políticos nas altas esferas, sabe conseguir tudo por meio das influências e, quando não as têm ao alcance, se serve do elementar suborno. É nisso que Cornelia, de 60 anos, pensa quando a irmã lhe conta que o mimado filho Barbu, de 34 anos (Bogdan Dumitrache), atropelou um garoto pobre de 14 e o matou.

Entretanto, o arrogante Barbu não está interessado no apoio materno — nem paterno. Ou melhor, lhe interessa que a mãe lhe massageie as costas afetadas pela batida, que vá até a casa dele buscar roupas, que lhe traga remédios e, mesmo a contragosto, que corra atrás da burocracia exigida pela polícia. No mais, quer muita distância da mãe. O motivo seria o papel de dominadora de Cornelia e o fato de esta odiar a nora.

Neste aspecto o filho tem razão. A mãe se sobrepõe a todas as ações dele (incluindo o casamento) e do marido. Nada lhe sai do controle. E chega ao ponto de acenar bandeira branca para a nora e ainda lhe propor acordo — para ambas dominarem melhor o filho. Aliás, a crueza de detalhes da conversa entre as duas sobre a vida sexual do casal tange o obsceno.

Mas é desta matéria que Calin Peter Netzer se utiliza para tornar não apenas crível o drama que relata. De posse de elementos extremamente realistas o diretor procura representar a vida do modo mais verdadeiro possível. E consegue. Estamos diante de uma encenação, mas o tom quase documental sugere que assistimos a uma história real, tamanha a força narrativa.

O drama que Cornelia cria por temer que o filho possa ser preso por crime doloso, encobre a verdadeira tragédia: a da família do garoto morto. O encontro dela com os familiares do menino é para corações fortes. E os argumentos de Cornelia soam cínicos, no entanto, tão humanos e tão próprios de uma mãe. Mas do outro lado também existe uma mãe. Podemos até racionalizar os discursos, mas isto só ocorre porque estamos do lado de fora.

Em 'Instinto Materno' — Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2013 — todos são afetados: o pai, a mãe, o filho e a nora e, claro, a família do garoto. E ao mesmo tempo em que o diretor nos mostra o sofrimento mais profundo, pois envolve a morte, o modo de se aproximar dele torna-se a alma do filme. Ele não usa subterfúgios, não teme tocar nas feridas, não foge da dor. E, com tudo isso, e sem buscar redenção, o desfecho nos purifica — no sentido da boa e velha tragédia grega.