Publicado 03 de Maio de 2014 - 11h00

Cena do longa 'Yves Saint Laurent', dirigido pelo comediante Jalil Lespert,

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Cena do longa 'Yves Saint Laurent', dirigido pelo comediante Jalil Lespert,

O cinema se especializou em recriar personagens reais de modo tão preciso que nem mais provocam admiração. Entretanto, causa espanto a caracterização de Pierre Niney como intérprete de Yves Saint Laurent (França, 2014), de Jalil Lespert. Mesmo depois, mais velho, quando não se nota tanta mudança, ficamos com a certeza de que o ator fez um grande trabalho, foi bem dirigido e captado com extrema competência pela câmera.

Trata-se de biografia, que não chega a ser brilhante no todo, mas se valoriza nos detalhes. Seja na citada caracterização ou na maneira de a direção abordar o personagem. E não poderia ser de outra forma: a elegância dá o tom ao filme. Dos desfiles (claro), aos modos do personagem, à maneira de enfocar a homossexualidade dele e dos muitos encontros sexuais — e até em brigas, desencontros e crises.

E tem-se a impressão que se fosse usado outro idioma que não o francês (prática comum, diga-se) o filme perderia irremediavelmente o charme. 'Yves Saint Laurent', o personagem e o filme, têm no idioma a mais perfeita tradução.

Na Paris de 1957, logo após a morte de Christian Dior, Yves Saint Laurent, então com 21 anos, é chamado para ser o diretor artístico da famosa grife de alta costura. E, no primeiro desfile, se nota claramente as influências do antecessor, mas também fica evidenciado o talento inovador do jovem estilista. Não será novidade a ruptura, desde já, escandalosa, pois ele irá aos tribunais, assim como se consuma um novo nome da moda, que se estabelece com grife própria e se consagra em todo o mundo. Até aqui, temos uma história sem surpresas, mesmo para quem não conhece a vida do estilista.

O recorte da roteirista Marie-Pierre Huster, no entanto, entrega a narração da história ao namorado de toda a vida Pierre Bergé (Guillaume Gallienne). O sucesso e os descaminhos terão a visão de Pierre, mas este não esconde os próprios pecados que afetarão a vida do casal.

E não será contemplado apenas o mundo da moda, mas a conturbada vida pessoal, o universo homossexual e das drogas, as intrigas de bastidores, as aventuras sexuais, a depressão e até questões políticas.

A política, aliás, torna-se um dos pontos de inflexão mais interessantes. Nascido na Argélia, ele será convocado a lutar na guerra contra a França. Ao se recusar, o jovem torna-se alvo da imprensa e de nacionalistas. Quando volta atrás, é recusado por problemas de saúde e cai em depressão. O Yves Saint Laurent da grife, do charme e da sofisticação dá lugar a um homem com autoestima precária incapaz de enxergar as próprias qualidades.

Não vem do endeusamento do nome famoso o melhor do filme, mas das contradições de um homem que ficou rico e célebre e não se sente suficientemente amado ou não se reconhece no contexto no qual se torna expoente.

Jalil Lespert não foge aos temas delicados, como as cenas de sexo, ou da depressão do personagem, mas elege a elegância como a linguagem preferencial. Nisto está o acerto da direção. Pode parecer óbvio, mas não é fácil apostar no simples e conseguir bons resultados.