Publicado 01 de Maio de 2014 - 5h30

Carlos Zuffo, santista de nascimento, mora em Campinas desde que tinha 6 anos. Hoje tem 44 e trabalha como gerente de um posto de gasolina, na Ponte Preta. Quem passa por ali e abastece o carro nem percebe. Mas aquele cidadão é um dos maiores — senão o maior — fãs campineiros de Ayrton Senna.Menino ainda, Zuffo se imaginava um piloto de Fórmula 1 quando descia a ladeira de carrinho de rolimã. Não perdia uma corrida na TV. E, na adolescência, na segunda metade dos anos 80, ficou vidrado de ver o Senna acelerando em pista molhada, e dando show mesmo quando dirigia a modesta Toleman. “Senna, na pista, era exatamente o piloto que eu sonhava ser quando moleque: destemido, ousado”, fala.Bom, o rapaz lia tudo que publicavam sobre o ídolo. Conhecia em detalhes a história de vida do astro. Colecionava artigos, fotos, revistas, fitas de vídeo. Pois a namorada Oneida — que Zuffo conheceu na faculdade de análise de sistemas, em Itatiba — se rendeu e também passou a frequentar autódromo e organizar a coleção. No dia 1 de maio de 94, aconteceu a tragédia. Zuffo, que sonhava trabalhar na IBM, chegou a fazer 13 entrevistas na empresa antes de ser contratado como estagiário no novíssimo departamento que desenvolvia softwares sobre inteligência artificial. Ele trabalhava havia pouco mais de um mês quando o Senna morreu. Pois Zuffo nem conseguiu trabalhar na segunda-feira: passou o dia chorando copiosamente. E tomou uma decisão radical, ainda que perdesse o emprego: tinha de se despedir ídolo. Botou uma troca de roupas na mochila, se embrulhou na bandeira brasileira e partiu para São Paulo.Varou a primeira noite no aeroporto e a segunda no velório. Entrou na fila uma seis ou sete vezes para passar ao lado do esquife, fazer o sinal da cruz e mandar um beijo para o falecido. E, da Assembleia Legislativa até o Cemitério do Morumbi, ele foi andando, chorando sem parar. Como milhares de fãs, ele foi barrado no portão. Não viu o sepultamento. Mas passou a noite no relento, até conseguir se aproximar da sepultura, na manhã do dia 6. E só saiu de lá quando o cemitério fechou as portas, no fim do dia.Na segunda-feira seguinte, cedinho, ele foi de carro até a IBM. Entrou na repartição com duas caixas de papelão para recolher os pertences da mesa, pois sabia que seria demitido. Para sua surpresa, tanto o gerente quanto os 15 funcionários do setor o confortaram, lhe entregaram dezenas de artigos e fitas sobre o sepultamento do piloto. E Zuffo foi mantido no estágio até o final do ano. Só saiu porque quis, para assumir a gerência do posto, que pertence a parentes.Carlos Zuffo se casou com a Oneida dois anos depois. Hoje, ele mora em apartamento totalmente decorado com objetos que fazem referência ao piloto: estátuas, troféus, miniaturas, bandeiras, capacete, livros, fotografias, quadros. O espírito do Senna está por todo canto. E até seus filhos Gustavo e Enzo (de 12 e 10 anos) cultuam o piloto, de tanto ouvir o pai. “Antes, eu sonhava em ter um filho chamado Ayrton. Mas a Oneida impôs: seria uma carga muito pesada para o menino carregar, a vida toda.”Hoje, Zuffo conta que ainda vê corridas. Admira Alonso, Vettel, Hamilton. Mas sabe que nenhum deles chega aos pés de Senna. “Senna talvez não tenha sido o melhor piloto. Também não era um santo: sempre provocou polêmicas, brigou, despertou inimizades e inveja. Mas aquele era o segredo. Ele mostrava que todo ser humano, cheio de defeitos e frustrações, podia ser um campeão”, fala.

O dia que São Paulo parou na homenagem ao ídolo

Passava um pouco da meia-noite. E fãs anônimos de Ayrton Senna já disputavam lugar no alambrado, na esperança de assistir o pouso do avião que trazia o esquife com o corpo do tricampeão. Gente que, provavelmente, nunca tinha pisado em um autódromo. Era uma galera muito humilde: roupas esgarçadas, tênis encardidos. Durante a madrugada, o saguão de embarque, os cafés e o entorno do aeroporto foram lotando. Havia trupes: gaúchos vestindo trajes típicos, torcidas uniformizadas de times nordestinos. E iam chegando, aos montes, centenas e centenas de moradores de São Paulo, aquela profusão imensa de crenças, cores e sotaques. Todo mundo estava ali para dizer adeus ao ídolo que partia.

O MD 11 gigantesco da Varig se aproximou escoltado por dois caças e pousou em Cumbica às 6h12. Todos os passageiros da aeronave desembarcaram. Em seguida, o caixão foi retirado do avião e ajeitado na viatura do Corpo de Bombeiros. A partir daquele momento, São Paulo parou. No caminho até o velório na Assembleia Legislativa o cortejo foi acompanhado por pessoas que tomavam acostamentos, pórticos de sinalização, viadutos, adutoras sobre o rio, praças. Era muita gente. Um milhão, talvez. Nunca se viu nada igual. Uns choravam compulsivamente. Outros permaneciam calados, estáticos, incrédulos.

Quando o esquife chegou à Assembleia, por volta das 9h30 daquela quarta-feira, 4 de maio de 94, uma multidão se aglomerava na rua. Havia faixas com mensagens penduradas nas árvores, recortes de jornal com fotos do ídolo afixados em paredes e grades. Até o fim do dia, e noite adentro, os paulistanos, em fila, passavam próximos do esquife e se despediam. Celebridades e anônimos compartilhavam a mesma dor.

Na manhã seguinte, o caixão deixou a Assembleia e o cortejo seguiu até o Cemitério do Morumbi. Os paulistanos formavam imensos cordões humanos ao lado de avenidas estratégicas e acompanharam o novo cortejo, que durou uma hora e meia. O povo acenava das calçadas, janelas, muros, telhados.

Dentro do cemitério, só havia parentes, amigos íntimos, autoridades e cerca de três mil jornalistas do mundo inteiro. Mas uma multidão permaneceu concentrada do lado de fora, exibindo fotos e faixas.

Do portão até a área do jazigo, o esquife foi conduzido e acompanhado por astros do automobilismo, de todos os tempos: Emerson Fittipaldi, Alain Prost, Jackie Stewart, Gerhard Berger, Damon Hill, Michele Alboreto... No grupo também havia garotos como Rubens Barrichello e Pedro Lamy, atordoados, como alunos que acabavam de perder um mestre.

O caixão foi depositado no jazigo 11, quadra 15, setor 7 do Cemitério do Morumbi. Os aviões da Esquadrilha da Fumaça desenharam um coração no céu. Na lápide da sepultura, havia um salmo encantador: “Nada pode me separar do amor de Deus”. O Brasil acabava e sepultar seu ídolo. (RV/AAN)