Publicado 04 de Maio de 2014 - 5h00

Por Zeza Amaral

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O Brasil brasileiro, cheio de ginga e meneios de quadris, muita malacacheta e tambores, não é o mesmo daquele Brasil brasileiro de familiares e amigos que vão à rua exibindo camisetas estampadas com o rosto de alguém conhecido deles todos, assassinado por uma bala perdida — e sabe-se lá saída da arma de um policial ou de um bandido do tráfico.

E aí se soma a queima de pneus, paralisação de uma importante avenida e, é claro, a queima estúpida de ônibus que no dia seguinte não estarão nas ruas para levar trabalhadores e seus filhos para seus destinos.

Escrevo esta crônica na noite de uma quinta-feira de feriado nacional. Acabo de ler que o Rio de Janeiro acabou de bater mais um recorde idiota: o soldado Wilson Sturião de Aragão, por volta das 9 horas da manhã, foi ferido por um tiro que lhe atingiu o maxilar, disparado por um bandido do narcotráfico. Ele é o vigésimo quinto policial militar ferido este ano nas UPPs — vítima que supera os 24 pms baleados nessas unidades em 2013. Cerca de trinta policias militares já foram mortos nas ditas “comunidades” pacificadas pelas Unidades Policiais Pacificadoras, as UPPs, sem que a imprensa carioca e afins tenham se preocupado com a vida desses policiais, a maioria jovens, recém-casados e com filhos pequenos, morando longe e arriscando a vida por um salário idiota.

O governador Sérgio Cabral, figadal amigo de Lulla da Silva, jamais compareceu a um enterro de um policial militar do estado que governa. Nem Lulla e tampouco Dilma Rousseff se interessam pelas mortes de policiais militares que são assassinados pelo narcotráfico. Suas famílias não saem pelas ruas exibindo suas fotos em camisetas. Apenas choram e se calam diante da tragédia mais do que anunciada. São mortos sem partido, sem ideologia. São apenas servidores públicos que tombaram em nome do ofício, sem direito a nenhuma honraria republicana, apenas a um caixão e a um buraco qualquer de cemitério.

Toda a morte nos diminui um pouco, como já disse um poeta. Mas a militância da morte é algo execrável, e tanto faz se a vítima é um facínora ou humilde e inocente cidadão que, a depender das circunstâncias políticas, terá a sua morte manipulada pelos espertalhões vigaristas da Imprensa que se somam aos anseios ideológicos desse ou daquele partido político.

E isso no Brasil de hoje é tão corriqueiro quanto os milhões de ratos que vivem sob os nossos pés, em silêncio e sempre à espreita, à sorrelfa, vivendo em esgotos políticos.

O Brasil brasileiro é o que temos quando chegamos em nossos lares e abraçamos nossas companheiras e filhos. Esse Brasil brasileiro que a Dilma Rousseff anunciou em rede nacional, em campanha eleitoral antecipada, é o Brasil mentiroso do Lulla da Silva, o vampiro político que sempre viveu de sugar a jugular dos trabalhadores brasileiros. Resta saber quem cravará uma estaca na sua língua mitômana e nada republicana.

Aqui, neste feriado nacional, no silêncio da redação, o menino Felipe Rondini Pioli, filho de uma amiga de redação, brinca sua infância com papéis, fala alto e me dá o exato sentido do que ora escrevo. E ele se torna um emblema de todos os nossos filhos; e é por ele que agora pulsa e vive a minha pena indignada, para que ele tenha um Brasil realmente brasileiro, mamolente, democrático e feliz com as suas mais nobres tradições políticas e culturais. E alegre como a sua voz anuncia — e exige, é claro — nos ouvidos carcomidos desse velho escriba, que ainda tem muita paciência aos gritos do futuro, é por esse Brasil brasileiro que também mantenho as minhas esperanças, pelo porvir que viveremos em nossos filhos e netos, aos filhos dos nossos amigos e desconhecidos cristãos. E também, é claro, pelo que nos resta de dignidade.

PS. No último dia 30, em São Paulo, nasceu o meu sobrinho-neto caçula, Rafael Ribeiro Buzinari. É a responsabilidade política que se assoma cada vez mais. Quanto ao resto, que sejam todos eles felizes. É isso.

Bom dia.

Escrito por:

Zeza Amaral