Publicado 01 de Maio de 2014 - 22h16

Pasquale

CEDOC

Pasquale

Com alguma frequência, leitores me pedem comentários sobre o emprego dos sinais de pontuação. Invariavelmente, a vírgula é a campeã das solicitações. Vamos, pois, iniciar uma série de textos sobre o assunto. Para começar, não custa lembrar e relembrar que é pura lorota a ideia de que é a respiração o que determina quando e onde se emprega a vírgula. Definitivamente, esqueça esse “conceito”.

Essa falsa tese decorre — provavelmente — da inversão do raciocínio: como muitas vezes a vírgula marca uma pausa, supõe-se (erroneamente) que a toda pausa corresponde uma vírgula. Não é assim. Quando o sujeito é longo, por exemplo, é normal que, na leitura, haja uma pausa entre ele e o verbo, o que não significa que se deva colocar uma vírgula entre esses dois integrantes da oração.

Verbo e sujeito não se separam por vírgula, mesmo que o sujeito seja extenso. Vejamos com fatos concretos o que pode ocorrer quando se põe vírgula entre sujeito e verbo. Vamos analisar estes dois casos: “Meu anjo dorme!”; “Meu anjo, dorme!”. Nesses trechos, a função de “meu anjo” depende da presença ou da ausência da vírgula. No primeiro exemplo (sem vírgula), “meu anjo” é o sujeito da oração. Nesse caso, declara-se que o anjo dorme. No segundo exemplo, a vírgula transforma “meu anjo” em vocativo, que é o ser (real ou personificado) ao qual a mensagem é dirigida. A palavra “vocativo” é da mesma família de “evocar”, “evocação”, “convocar” etc.

Os dois exemplos do parágrafo anterior ilustram bem o que pode ocorrer quando se emprega uma “inofensiva” vírgula. Pode-se, por exemplo, transformar o sujeito em vocativo (e vice-versa, quando se deixa de pôr a vírgula); pode-se, enfim, pura e simplesmente alterar o sentido do texto.

Antes que me esqueça, note como é comum nos e-mails e em mensagens publicitárias (de empresas privadas ou de órgãos públicos) o emprego do vocativo sem a vírgula. Nos e-mails, em vez de “Olá, Sílvia”, por exemplo, é mais comum “Olá Sílvia”. Na publicidade, a coisa muitas vezes segue o mesmo caminho. Um dos governos anteriores promoveu uma campanha cujo lema era “Acorda Brasil!”. Que significa isso? Tudo, menos o que parecia ser o objetivo do Ministério da Educação (patrono da campanha). Para que o termo “Brasil” funcionasse como vocativo, teria sido necessário separá-lo por vírgula (“Acorda, Brasil!”).

A esta altura, alguém talvez esteja pensando nas formas verbais “acorda” e “dorme”, das frases “Acorda, Brasil!” e “Meu anjo, dorme!”. Será que não seria necessário que as formas verbais fossem “acorde” e “durma”, respectivamente, para que se configurasse a ideia de ordem e para que “Brasil” e “meu anjo” efetivamente tivessem a função de vocativo? A resposta é não. Consegue-se o tom imperativo (de ordem) na mensagem tanto com “acorda” e “dorme” (“Acorda, Brasil”; “Dorme, meu anjo”) quanto com “acorde” e “durma” (“Acorde, Brasil”; “Durma, meu anjo”).

A questão do uso de formas imperativas como “acorda” e “acorde” ou “dorme” e “durma” envolve outros aspectos, que poderemos discutir em outra ocasião. Por enquanto, fica a dica sobre a pontuação, que vale a pena repetir: para que “Brasil” e “meu anjo” sejam vocativos, é preciso empregar a vírgula. Vamos lá? Vamos lá: “Acorda, Brasil!”, “Acorde, Brasil”, “Meu anjo, dorme!”, “Meu anjo, durma”.