Publicado 02 de Maio de 2014 - 22h17

Colunista de Fórmula 1 - Julianne Cesaroli

Cedoc/RAC

Colunista de Fórmula 1 - Julianne Cesaroli

John Lennon e Ayrton Senna. Apesar da obra dos dois falar por si só, ambas as vidas foram interrompidas antes — e ainda por cima de forma abrupta, violenta, inesperada — que tivessem tempo de se mostrarem mortais. No caso do inglês, faltou tempo de fazer parcerias de gosto duvidoso como Paul McCartney. No do brasileiro, faltou o declínio natural e a passagem de bastão para o novo ídolo Michael Schumacher.

Foram ambas partidas ainda mais dolorosas porque eles nunca se mostraram mortais em vida. Nasci depois do assassinato de Lennon, mas lembro precisamente do sentimento de “é o Senna, não vai acontecer nada” ao ver o acidente de 20 anos atrás.

Mas Senna se mostrou humano e se foi. E deixou uma expectativa indigesta para cada um de nós em cada manhã de domingo. Vai ver é essa frustração inevitável que faz tanta gente que continuou acordando cedo e curtindo as novas batalhas que iam aparecendo, de certa forma provando que seu amor pelo esporte era mais forte que a lenda, se sentir desconfortável com tamanha adoração, que transcende esse nosso mundinho. É como conhecer a fundo a discografia de Lennon e se irritar quando alguém se contenta com “Imagine”. Deveriam sentir-se honrados.

Não adianta vir com números, com papo de “só foi campeão com melhor carro” ou relembrar momentos em que Ayrton teve atitudes que desafiam a aura criada ao redor dele. Nada disso tem a ver com o mito.

Para entender onde Senna está no imaginário brasileiro, temos de voltar à realidade do País no final dos anos 80, cheia de incertezas, inflação absurda, decepções nos primeiros anos pós-redemocratização. Domingo de manhã era a hora da nossa redenção. Senna era um exemplo de determinação, incutia em nosso imaginário que não éramos tão inferiores assim, que, se perseverássemos, atingiríamos nossos objetivos. Se tudo isso era verdade ou pura ilusão, não importa. Senna adotou esse papel de messias a cada frase de autoajuda e toda vez que empunhava a bandeira.

Aquele ar ora sobrenatural, ora gente como a gente, exatamente quando estávamos tão carentes como nação, que explica por que a memória dele ainda é tão viva nas pessoas, por que há essa adoração muitas vezes cega — e o fato de não o “deixarmos” ir mostra o quanto essa carência perdura.

Talvez por isso eu tenha sentido, do alto de meus nove anos, naquele 1º de maio, que eu tinha perdido alguém da família. E acabei descobrindo, nas até hoje impressionantes cenas do cortejo, que não estava sozinha. E fiquei honrada pelo “meu” esporte ter tocado tanta gente.