Publicado 02 de Maio de 2014 - 5h00

CECILIO

CEDOC

CECILIO

Aconteceu que, na última segunda-feira, precisei sair de casa. E ir — vejam a coisa absurda — ao centro da cidade! Tentei evitar, relutei. Mas fui, o coração doendo, o medo antecipado da turba enlouquecida nas ruas, do tsunami de automóveis, do infernal barulho de motores e de buzinas, dos sons estapafúrdios que idiotas dizem ser música. Aspirei, inspirei o silêncio de meu cantinho, tive a tentação de benzer-me mas criei coragem e fui-me.

Entrei no automóvel, coitadinho, quase esquecido à sombra do flamboyant, o teto dele coberto de florezinhas vermelhas.

 

“Vamos lá, companheiro...” — pensei, acariciando a direção apenas para me assegurar de que ela existia. Meus filhos, os tais, proíbem-me de dirigir, bobões. Mas eu o faço, de quando em quando, sempre para os mesmos lugares, à pouca distância: à farmácia, ao supermercado, lugares onde vejo a paisagem humana e me condôo dela. Pessoas de olhares opacos, tristes, rostos fechados, cenhos franzidos. Ninguém mais parece saber rir.

Meditei um pouquinho, antes de ligar o motor. Havia, ainda, um terço de combustível no tanque. Orgulhei-me. Pois foi na semana anterior ao Carnaval a última vez em que o abasteci. Cinquenta reais. E restava, ainda, um quarto de tanque. Rodei, em quase sessenta dias, apenas 128 quilômetros. Mais ainda: meu carrinho — não sei Fox ou Focus, sempre me confundo — tem dez anos de idade. E está com 135 mil quilômetros rodados. Para não magoá-lo, não lhe contei a vontade que estou de vendê-lo. Ou de trocá-lo.

Pensei num fusquinha, primeiro amor dos 20 anos. Meus filhos enfezaram, uma geração intoxicada pela imagem de grandes carrões, de máquinas infernais: “Nós não vamos admitir que você ande de Fusca. Não queremos nem mais que dirija”. Proponho-lhes, então, vender o carro, ficar sem. E o “non sense” se torna ainda mais assombroso: “Ficar sem carro? Nunca! E se precisar dele, numa emergência, se lhe acontecer alguma coisa?” É uma loucura diante da qual me silencio: não querem que eu dirija, mas insistem em que eu continue a ter um carro. Ora, bolas: se for numa emergência, para que me serve, se não poderei dirigir? Alguém, em minha família, está com Alzheimer mas não sou eu.

Retorno, porém, ao martírio de precisar deixar meu mosteiro e ir até o banco para fazer uma mísera assinatura numa atualização de cadastro. Quase submergi num mar de automóveis, sentindo-me enlouquecer com gente grosseira, buzinando para eu dirigir mais rapidamente, fazendo-me sinais obscenos, xingando. E como e onde estacionar o carro? A garagem do banco estava lotada, estacionamentos próximos também, as ruas — coalhadas de parquímetros não tinham espaço — nem para velhotes ou deficientes físicos. Pois eu me propusera a fingir-me de aleijado, sair mancando e encontrar um lugar para estacionar.

Nesse um dos nove infernos de Dante, consegui vaga a oito quarteirões do banco. Ao preço de seis reais à primeira hora. E fiquei rodando por uns quarenta minutos, seis quilômetros contados. Suando — e, também, “gemendo e chorando neste Vale de Lágrimas” — fui ao banco e, enquanto andava com os meus próprios pés, veio-me a inspiração final. Que transformei em decisão: trocar meu carro por uma charrete.

Ora — perguntar-me-ão os mais jovens — o que é uma charrete? E eu lhes sacio a santa ignorância: charrete é um carro com duas rodas e com varais, puxado por animais, geralmente burros ou cavalos. Trata-se de um meio termo entre a carroça — a tal “coisa de pobre” — e a carruagem, veículos dos ricos, de príncipes e reis. Charrete, pois, é veículo de classe média. Nem Fusquinha, nem Mercedes.

Quero, pois, trocar meu carro por uma charrete. E não preciso que venha com cavalo, mula ou jegue. Só a charrete, pois já fui informado de que veículo com tração animal não pode circular pelas principais das chamadas vias urbanas, na verdade, praças de guerra. Mas — vejam bem, nossos tempos! — é proibido trafegar com animais pelas ruas centrais e, no entanto, é absolutamente normal, permitido e aceitável que homens puxem carroças carregadas com o lixo que catam nas ruas. Eles fazem-se de animais para poderem sobreviver como homens. E podem puxar carroças no centro da cidade.

Está, pois, resolvido o meu problema. Troco o carro por charrete e contrato algum desses homens-animais para que me conduzam por aí. Ninguém irá criticar-me. E eu, então, tornar-me-ei um homem do meu tempo, atualizado, moderno: ajudarei a animalizar homens para que me sirvam como transporte. E eles nem perceberão se é homem ou lixo que estarão puxando. Seremos, então, todos iguais.