Publicado 02 de Maio de 2014 - 12h15

Por Vanessa Tanaka

Buraco do Sapo, uma das comunidades envolvidas no projeto da recriar.com.você

Divulgação

Buraco do Sapo, uma das comunidades envolvidas no projeto da recriar.com.você

A casa própria ainda é um desejo distante para muitas pessoas. Embora os programas para facilitar a aquisição tenham colaborado, o valor para ter o seu teto ainda é alto para os padrões de grande parte das famílias brasileiras.

A solução encontrada pela organização não governamental (ONG) e sem fins lucrativos recriar.com.você foi lançar um projeto de casa popular sustentável que visa minimizar os custos com os materiais de construção e mão de obra e ainda ajuda a preservar o meio ambiente.

Segundo a arquiteta da ONG, Míriam Morata Novaes, o Projeto Recriar consiste basicamente em construir uma casa popular sustentável com custo em torno de 10% do valor mais baixo do programa Minha Casa Minha Vida (R$ 5,5 mil) e ensinar a fazer tudo isso.

A ação é uma tentativa de inserir a construção sustentável em quatro justificativas importantes: social, ambiental, econômica e tecnológica.

As paredes, no início, foram testadas com o superadobe, ou seja, sacos de propileno preenchidos com terra e sobrepostos para construir as paredes.

 

 

 

Parede construída com palha e adobe

 

 

 

 

 

 

 

A vantagem dessa técnica é a possibilidade de execução pelos próprios moradores, o que diminui em aproximadamente 50% o valor da casa e evita o uso de materiais extremamente agressivos ao meio ambiente, como cimento e gesso.

 

Entre muitas vantagens, ainda destacam-se o conforto térmico e acústico e a resistência estrutural das paredes.

Míriam explica que, mesmo com a opção de usar a terra como matéria-prima para produzir componentes — como o adobe, painel monolítico de solocimento, bloco de solocimento, bloco de gesso reciclado etc. —, a obra não fica restrita a um material específico, uma vez que cada local tem suas peculiaridades e proporciona um universo muito rico em opções naturais e recicláveis.

Com a colaboração de todos, afirma a arquiteta, não há limites para criar novos materiais e sistemas construtivos.

“Eu, pessoalmente, desenvolvo o sologesso, gesso reciclado misturado com terra para confecção de bloco e painel. Temos amigos que trabalham com solocimento em bloco e painel monolítico e outros que focam no adobe, telhado verde etc. Nossa proposta é entrar na comunidade, como fizemos com o Buraco do Sapo (favela próxima ao Jardim Flamboyant) e Campo Belo, entrar em contato com os moradores e o entorno para conhecer as suas necessidades e expectativas, bem como os materiais que poderão ser reciclados ou aproveitados”, diz Míriam.

Para cada lugar, explica, serão usados um material e uma técnica que se adequem à população e às características do local.

 

 

 

 

Criatividade nos mosaicos de fundos de garrafas aplicadas no piso

 

 

 

 

Os materiais são recolhidos nos arredores. “Nossa proposta é utilizar um raio de dois quilômetros, no máximo, em torno da comunidade. Construir com terra e reciclar materiais para produzir componentes e móveis, captar água de chuva e aproveitar a energia do sol não é nenhuma novidade. Os antigos já faziam isso com maestria, nós apenas estamos tentando resgatar esse respeito e sabedoria”, afirma a arquiteta.

Para chegar a esses sistemas, porém, foram necessários anos de pesquisas e testes. Para construir um protótipo de uma casa popular sustentável, é necessário, antes de tudo, desenvolver os materiais e componentes dentro das especificações da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e treinar os futuros moradores.

“Fizemos um grupo para desenvolver os projetos, mas nos deparamos com problemas que deverão ser trabalhados enquanto desenvolvemos a casa. Antes da arquitetura, precisamos focar na educação. Não adianta colocar a família em uma casa sustentável se eles deixam a porta da geladeira aberta para clarear o quarto ou ficam o dia inteiro com a mangueira ligada lavando o carro. Por esse motivo, estou concentrando na divulgação da cultura da sustentabilidade e na preparação antes da construção”, detalha a arquiteta.

Os interessados nos cursos de capacitação em construção sustentável, oferecidos de forma gratuita pela ONG, precisam fazer parte de uma comunidade carente e visitar o blog para conhecer o trabalho.

O endereço é http://www.recriarcomvoce.com.br/blog_recriar

 

Já o e-mail, [email protected]

 

“A capacitação também é um processo de reeducação, resgate da cidadania, dignidade e inserção no mercado de trabalho”, diz a arquiteta.

 

Saiba mais

O programa básico de capacitação desenvolvido pela ONG consiste em ensinar às comunidades noções elementares de construção e confecção de componentes como blocos e telhas utilizando materiais reciclados ou resíduos da construção.

Também envolve o desenvolvimento, junto com o grupo, de painel de captação de energia solar para aquecimento de água, sistema de captação de água de chuva, confecção de portas, janelas e móveis utilizando materiais reciclados como tábuas e madeiras de obra, uma forma de disseminar a cultura da sustentabilidade.

 

Protótipo de casa popular ‘verde’

Um protótipo de casa popular sustentável projetada pela ONG recriar.com.você está sendo desenvolvido em parceria com alunos da pós-graduação da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e tem a colaboração das comunidades assistidas.

 

 

 

 

A arquiteta da ONG, Míriam Morata Novaes, prepara o sologesso

 

 

 

 

O modelo segue a normatização nacional e internacional de desempenho quanto à durabilidade, conforto térmico e acústico, resistência mecânica e em situação de incêndio.

O projeto é feito com materiais de construção e tecnologias sustentáveis de baixo custo que possibilitam a coleta e reutilização de água da chuva para descarga do vaso sanitário e irrigação do jardim, também leva materiais de construção naturais e recicláveis e de fontes renováveis que produzam menor impacto ambiental e que estejam disponíveis na área.

Outros sistemas adotados são o tratamento local de esgoto doméstico, desenvolvimento de projeto que possibilite a autoconstrução ou a construção através de sistemas de mutirão, aquecimento de água por painéis solares e acessibilidade universal para todos os cômodos, adequados à movimentação independente de idosos e deficientes físicos.

Outra pesquisa pretende desenvolver componentes como blocos, telhas, elementos para fundação, estrutura e vedação utilizando resíduos da construção convencional e materiais reciclados. O objetivo é retirar da natureza milhares de toneladas de lixo e transformá-los em materiais de construção.

Menos é mais

Para a arquiteta da ONG, Míriam Morata Novaes, hoje, a palavra sustentabilidade não se refere apenas a um estilo de vida, mas é a única saída para a sobrevivência da civilização.

 

“O conceito de desenvolvimento sustentável implica em buscar soluções viáveis, que minimizam os impactos ambientais e maximizem os resultados sociais”, aponta a arquiteta.

Atualmente, a ONG possui um escritório em São Paulo e um endereço em Campinas, no distrito de Barão Geraldo, na casa de um dos membros. Para execução dos projetos e eventos, conta com a colaboração dos voluntários e parcerias que cedem espaço para as atividades.

A recriar.com.você solicitou à Prefeitura de Campinas a doação de uma área para construir sua sede, que contará com um centro tecnológico para pesquisa e ensino direcionado à população carente e pesquisadores em geral,

e uma ecovila com diversas casas dentro dos padrões da entidade. 

Escrito por:

Vanessa Tanaka