Publicado 15 de Maio de 2014 - 6h23

Por Maria Teresa Costa

Conjunto de bombas (ao fundo) vai retirar reserva de água para abastecer a Grande São Paulo

César Rodrigues/AAN

Conjunto de bombas (ao fundo) vai retirar reserva de água para abastecer a Grande São Paulo

O governo do Estado adota hoje a medida mais drástica já tomada na gestão do Sistema Cantareira para adiar o racionamento de água na Grande São Paulo: começa a retirar, com uso de bombas, a água que está no fundo dos reservatórios, o chamado volume morto.

 

É a primeira vez na história do sistema — cuja operação começou em 1974 — que a polêmica manobra será feita.

 

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) vai acionar as bombas na represa Jacareí, em Joanópolis, transformando uma água, que naturalmente não entra nos túneis de interligação dos reservatórios, em volume útil. Com isso, a capacidade do sistema vai saltar dos 8% de ontem para cerca de 23%.

 

Não há consenso, ainda, sobre quando essa nova água irá acabar e nem como será partilhada entre a Grande São Paulo e parte da região de Campinas.

 

Segundo as estimativas dos gestores do Cantareira, o volume morto dos reservatórios é uma reserva técnica de 481 bilhões de litros. Serão retirados inicialmente 183 bilhões, dos quais 105 bilhões serão disponibilizados a partir de hoje no reservatório Jaguari-Jacareí e outros 78 bilhões, a partir de junho, na represa Atibainha, em Nazaré Paulista.

 

 Os reservatórios do chamado sistema equivalente — formado pelas represas que abastecem a região de Campinas — somavam ontem 77,94 bilhões de litros acima da saída dos túneis e com a manobra que começa hoje, o volume útil saltará para 260,96 bilhões.

A manobra visa exclusivamente atender a Grande São Paulo porque o que é volume morto para a Bacia do Alto Tietê e está abaixo dos túneis de captação da Companhia de Saneamento Básico do Estado (Sabesp) é volume útil para as Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ).

 

Segundo o Departamento de Água e Energia Elétrica (Daee), essa água é descarregada para as Bacias PCJ por meio das válvulas ou comportas existentes no fundo das represas, que liberam água para os rios Jaguari e Atibaia.

A operação de retirada da reserva técnica está exigindo investimentos de R$ 80 milhões. Para a captação foram construídos dois canais, que somam 3,5 quilômetros de extensão, e a instalação de 17 bombas nas represas Atibainha e Jaguari-Jacareí, cuja função é retirar o volume do fundo das represas e impulsionar parcela da água presente nessa reserva estratégica para que ela siga o fluxo normal nos túneis, antes de chegar à estação de tratamento.

 

O Grupo Especial de Atuação no Meio Ambiente (Gaema) tem questionado a qualidade da água que está nessa reserva técnica com base em informações de especialistas que afirmam existir riscos de contaminação porque o fundo dos reservatórios acumula sujeira, sedimentos e até metais pesados.

 

O Daee, gestor do Cantareira, nega e diz que a água tem a mesma qualidade da que está acima dos túneis e que é liberada por comportas de fundo para os rios Jaguari e Atibaia, nas Bacias PCJ.

 O Ministério Público acompanha a situação e aguarda as próximas medidas que o Estado deverá adotar para tentar evitar o caos no Sistema Cantareira.

 

Os promotores do Gaema defendem desde o início da crise a redução da retirada de água pela Sabesp para que os reservatórios possam ter algum volume de água para quando a estiagem de fato chegar.

 

PCJ critica retirada

O Consórcio das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), entidade que reúne os usuários de água, é crítico em relação ao início da retirada do volume morto agora.

 

O secretário-executivo da entidade, Francisco Lahóz, defende que essa água deveria ser mantida como uma reserva para ser usada a partir de outubro, se as chuvas de fato não vierem.

 

Rio Atibaia, que abastece Campinas, com as margens secas esta semana

 

 

 

Leito seco do Rio Atibaia, que abastece Campinas, esta semana

Crédito: Janaína Maciel/ AAN

 

 

 

 

 

 

Para que a água do sistema pudesse garantir o abastecimento até lá, a redução de consumo já deveria ter sido adotada, disse. A estratégia adotada pelo governo, segundo o consórcio, vai exaurir o volume morto já em agosto.

A Agência Nacional de Água (ANA) e o Departamento de Água e Energia Elétrica (Daee) avaliam que não haverá água nos reservatórios suficiente para garantir a liberação de vazões que são adotadas no período da estiagem nos meses de agosto e setembro, quando geralmente são liberados 7m3/s para as Bacias PCJ e 21m3/s para a Grande São Paulo.

 Hoje, as Bacias PCJ estão recebendo 3m3/s. A água, segundo a agência, pode acabar em novembro. O governo do Estado fala que chega até janeiro e se chover, pode aguentar até março.

Nos cálculos da ANA, se a vazão que entra nos reservatórios ficar em 6m3/s, haverá um déficit de 22m3/s, que deverá ser suprido pelo volume atualmente armazenado no Sistema Cantareira, incluindo a reserva estratégica, que começa a ser utilizada hoje.

 

Essa nova água terá condições de disponibilizar uma vazão de 12m3/s até 30 de novembro, restando ainda uma reserva técnica de 50 bilhões de litros.

Para compatibilizar a demanda com a disponibilidade, parte do déficit de 22m3/s em setembro poderá ser suprido pelo volume armazenado no Cantareira (12m3/s), mas a outra parte de 10m3/s deverá ser atendida por meio de uma alocação prioritária entre Bacias PCJ e a Região Metropolitana de São Paulo. 

 

 

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