Publicado 03 de Maio de 2014 - 20h45

Por Yasmine Souza

Anna Luiza, de 7 anos, com seu primeiro sapato de salto, comprado pela mãe, a dona de casa Juliana:

Dominique Torquato /AAN

Anna Luiza, de 7 anos, com seu primeiro sapato de salto, comprado pela mãe, a dona de casa Juliana: "Ela viu uma amiga usando e quis igual"

Salto alto, esmalte e maquiagem. Itens como esses, comuns ao universo feminino, se tornam cada vez mais parte do dia-a-dia de meninas que mal saíram da pré-escola. Muitas mães, por ingenuidade, acabam incentivando este tipo de comportamento, que pode trazer sérios riscos à saúde da criança, além de gerar danos psicológicos irreparáveis.

Uma pesquisa realizada pela fisioterapeuta Renata Augusto Martins, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, mostrou que o uso de calçados inadequados, com saltos e plataformas, não contribui para o desenvolvimento motor e nem para a construção da feminilidade da menina, que acaba sendo antecipada da adolescência para a infância.

Na pesquisa desenvolvida, a fisioterapeuta estudou o uso de calçados por meninas com idade entre 1 e 7 anos. Ela explica que, durante esta fase, a marcha independente é o ponto alto do desenvolvimento motor. Por isso, o tipo de sapato utilizado pode influenciar no desempenho de um caminhar seguro e alterar a largura, o tempo e o impacto do passo da criança. “O risco da menina sofrer um entorse de tornozelo e uma queda com os saltos é muito grande, porque ela ainda não desenvolveu completamente as habilidades motoras”, afirma Renata.

Além disso, o hábito de usar salto precocemente pode gerar danos estruturais na idade adulta, como os joanetes e lesões no nervo entre os dedos. Por isso, para a pesquisadora, o sapato ideal para as crianças é o tênis. “Tanto quanto possível, as crianças também deveriam andar mais descalças”, afirma Renata. Muitas mães acabam cedendo aos pedidos das filhas, que influenciadas pela mídia e pelas amigas, pedem os “saltinhos”, mas Renata explica que é preciso dizer “não” para poupar as meninas e preservar a infância.

“Uma coisa é brincar de ser adulto. Outra é descaracterizar a criança”, afirma Renata. A psicóloga Priscila Ribeiro Manzoli explica que os danos podem ir mais além. “Isso acaba criando ‘mini-adultas’, acelera um desenvolvimento emocional que as crianças ainda estão construindo, e por isso, não estão aptas a enfrentar”, diz. Segundo a psicóloga, a caracterização de meninas como adultas também pode antecipar a sexualidade. “É algo com o que ela ainda está aprendendo a lidar, e deve ser um processo natural”, afirma.

A dona de casa Juliana Ribeiro, de 28 anos, conta que comprou o primeiro sapato com salto para a filha Anna Luiza, de 7 anos, quando ela tinha 6. “Ela viu uma amiga usando e quis uma igual. Quando ela vai brincar peço para tirar o sapato com medo que ela se machuque”, afirma.

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Yasmine Souza