Publicado 03 de Maio de 2014 - 16h49

Acima, lixo acumulado no Jardim Eulina

Janaína Ribeiro/Especial a AAN

Acima, lixo acumulado no Jardim Eulina

Campinas, que enfrenta neste ano a maior epidemia de dengue de sua história, olha para seu passado, quando o mosquito Aedes aegypti também provocou uma crise de proporções catastróficas, reduzindo a população da cidade de 20 mil para 5 mil moradores.

Do total, boa parte fugiu com medo da doença e o restante cuidou da própria vida. Estima-se que quase 2 mil morreram. Há 120 anos, o município foi quase dizimado pela epidemia da febre amarela, que deixou marcas na história do município.

O Aedes aegypti, que transmite a dengue, é também um dos principais vetores da febre amarela no Brasil. O inseto foi considerado erradicado no País na década de 1950, mas voltou nos anos 70, vindo principalmente de países vizinhos.

Assim como a dengue, a febre amarela não é transmitida de uma pessoa para a outra. A transmissão do vírus ocorre quando o mosquito pica uma pessoa ou um macaco infectados, normalmente em regiões de mata e cerrado, e depois pica uma pessoa saudável que não tenha tomado a vacina.

A história da epidemia de febre amarela em Campinas está contada no livro O Ovo da Serpente — Campinas/1889, escrito pelo historiador Jorge Alves de Lima, presidente do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Campinas.

O livro de 210 páginas foi finalizado no ano passado e o segundo volume, de 1890, está sendo escrito.

Para Lima, a história sempre é uma advertência para o presente e futuro. “Recontar o passado da cidade tem um valor de alerta, para que a população cobre as demandas que são necessárias hoje. A história se repete”, disse.

O historiador afirmou que as providências que são tomadas nos dias de hoje para combater a dengue são as mesmas que foram necessárias há mais de um século. “Temos falta de limpeza pública, terrenos baldios, água estagnada em pontos. Na época, tínhamos também latrinas e chiqueiros de porcos, mas é o mesmo cenário.”

Projeção feita pelo historiador aponta que, se a epidemia de dengue tivesse as mesmas proporções que a da febre amarela, no século passado, mataria em um dia 600 pessoas.

Para fazer a conta, Lima usou como parâmetro o dia 18 de abril de 1889, quando morreram 58 pessoas vítimas da febre amarela. “A febre amarela é a maior lição deixada para a população e para a Administração. Infelizmente não aprenderam”, afirmou.

Foram seis epidemias de febre amarela, ao longo de uma década inteira, que quase varreram a Campinas do mapa. A primeira e maior delas, segundo Lima, foi a de 1889. Em uma época onde a comunicação era precária e a saúde pública não tinha infraestrutura, heróis se destacaram — muitos dos quais perderam a própria vida ao ajudar os infectados.

Na época, Campinas tinha 20 mil moradores. Cerca de metade, segundo documentos históricos levantados por Lima, fugiram da praga. Quem ficou, cuidou da própria vida. No momento mais crítico, apenas três dos 26 médicos atuantes na cidade se dispuseram a permanecer por aqui e cuidar dos doentes. Campinas ficou sem governo. A Câmara Municipal teve as sessões suspensas entre 11 de março e 30 de abril daquele ano, porque só quatro vereadores continuavam na cidade.

Um dos médicos, João Guilherme Costa Aguiar, que decidiu ficar em Campinas, acabou morrendo de febre amarela. Na ocasião, ele mandou a família para Itu, e ficou sozinho para cuidar dos pacientes campineiros. Ele morreu em maio de 1889, e se tornou um herói da cidade e símbolo na luta contra a epidemia. Uma das ruas do Centro de Campinas homenageia o profissional.

Quem tinha para onde fugir não pensava em quem ficava para trás. Imigrantes, ex-escravos e lavradores, por exemplo, foram deixados. Quem não tinha a febre, passava fome. E quase metade dos que ficaram morreram.

Precariedade

O livro resgata um editorial do Diário de Campinas, de fevereiro de 1889, logo depois dos primeiros óbitos, que denuncia a precariedade completa da infraestrutura urbana. Apesar de ter ocorrido há 120 anos, o cenário lembra a Campinas de hoje, com diversos pontos abandonados e com acúmulo de água — cenário ideal para a evolução do mosquito transmissor.

Na época, terrenos baixos da cidade, como a área onde fica hoje a Praça Carlos Gomes, eram imensos brejos com água acumulada e esgoto despejado. Na época, o governo estadual realizou uma força-tarefa para executar obras estruturas na cidade.

Para combater a praga da febre amarela foi necessário criar o Desinfectório Central, instalar canais para córregos, obras de saneamento que fizeram a cidade “expurgar” o mal.

Segundo Lima, os políticos da época não aceitavam o que diziam ser “intromissão” do governo paulista. No entanto, as obras foram feitas.

Neste ano, após o agravamento da epidemia de dengue, a Prefeitura de Campinas solicitou apoio do Exército — que realiza a lacração de caixas d’água — e do Ministério da Saúde, por meio da Força Nacional SUS (o apoio, no entanto, foi descartado).

Além disso, o Município também foi à Justiça para poder entrar em casas fechadas e eliminar possíveis criadouros do Aedes aegypti.

 

PONTO DE VISTA

JORGE ALVES DE LIMA, historiador, presidente do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Campinas

JORGE ALVES DE LIMA, historiador, presidente do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Campinas

No fim do século passado, precisamente de 1889 a 1900, a nossa cidade, literalmente, quase foi varrida do mapa pela cruel e mortífera febre amarela. Campinas, naquela época, tinha uma população estimada em 20 mil habitantes.

 

Quando começaram a surgir os primeiros casos fatais, 15 mil habitantes, apavorados, fugiram da cidade, inclusive os farmacêuticos e enfermeiros. Os médicos também fugiram, ficando apenas quatro médicos.

 

A cidade ficou reduzida apenas a 5 mil habitantes, sendo que no dia 19 de abril de 1889, morreram cinquenta e oito pessoas. As causas da incidência da peste amarela foram a falta de higiene, tanto por parte do poder público, como também da população. A lição cruel da história se reproduz: a febre amarela toma agora a forma de dengue. A doença, pelo noticiário dos jornais, já infectou mais de 15 mil pessoas e muitas das vítimas já estão morrendo.

 

As causas da febre amarela, em 1889, são as mesmas da dengue em 2014, em pleno século 21, ou seja: os bairros periféricos abandonados e entulhados de lixo, terrenos cobertos de mato e de sujeira, casas fechadas com seus quintais alagados e piscinas abandonadas. A maior parte da população tem grande culpa pelo desmazelo, pela inércia e pela falta mais elementar de higiene.

 

O poder público, nesses últimos anos, preocupou-se somente em fazer política, esquecendo-se de administrar a cidade, de conservá-la e zelar por sua existência. Os prédios públicos não receberam nenhuma atenção, basta ver o Teatro do Centro de Convivência, para simbolizar a incúria dos maus administradores e políticos.

A atual administração é menos responsável por este lamentável estado de coisa.

 

 

Recebe agora um triste legado. O efeito retardado da conta, cujo pavio foi aceso nesses últimos anos. A solução agora é convocar a população toda, com ajuda do governo, do Estado, do Governo Federal e do Exército. O governo federal mandou até agora, segundo o noticiário, apenas dois técnicos para ver o que estava acontecendo.

 

Lembro apenas que no primeiro governo da República, o Manuel Teodoro designou para Campinas a quantia de 533 mil contos de reis e o governo estadual de Prudente de Moraes também socorreu Campinas.

 

E agora como estão os socorros governamentais em Campinas? A verdade é esta: o governo e a população não aprenderam com a lição da história. A epidemia da dengue bem a demonstra.