Publicado 01 de Maio de 2014 - 12h15

Por João Nunes

Anos Felizes

João Nunes

Anos Felizes

Em Anos Felizes, exibido ontem dentro do 18ª edição do Cine PE Festival do Audiovisual, que acontece em Recife/Olinda até amanhã, o italiano Daniele Luchetti evita pesar a mão nos dramas que o compõem. Em vez disso, prefere imprimir delicadeza no modo de contar a história – não é por acaso, portanto, o título do filme previsto para estreiar no dia 22 de maio.

 

Narrado na fase adulta e de modo nostálgico pelo garoto Dario (Samuel Garofalo), voltamos a algum lugar do passado nos anos 1970 na Itália. Com uma câmera que ele ganha da avó, ele capta imagens que mudarão para sempre o destino da família, composta pelo pai Guido (Kim Rossi Stuart), a mãe Serena (Micaela Ramazzotti) e o irmão mais novo.

 

Guido interpreta um artista plástico envolvido com performances de uma suposta vanguarda, enquanto se relaciona sexualmente com as modelos com quem trabalha – o que irá gerar ciúmes da mulher. Mas estamos em um período de libertação de costumes e a mãe também terá envolvimentos fora de casa. A diferença é que ela tem um caso com uma mulher.

 

Já vimos filmes assim, da mesma maneira que acompanhamos histórias narradas em segundo plano por uma câmara super 8. Não há novidade, portanto, ainda que imagens do passado sempre evoquem nostalgias – e mesmo levando em conta que num desses filmes esteja uma revelação.

 

O que me parece mais interessante é a mise-en-scène tão bem realizada, o trabalho dos dois meninos, uma certa ousadia em abrir para as próprias crianças a questão sexual com extrema naturalidade.

 

É bem verdade que o assunto não apenas toca o pai, mas também Dario. Na melhor sequência do filme ele chama a atenção dos pais de modo bem pouco inusitado. E as consequências do ato dele só aparecerão no final da história: um primor de roteiro/montagem, que mistura um tanto de comédia misturado com outro tanto de dramaticidade.

 

Está na leveza da abordagem um tanto de charme do filme, assim como no bom texto do roteiro, que são alguns achados. Por exemplo, Dario chama a mãe de Serena, porém num dia crucial, a chama de mãe. “E ela nem percebeu”, diz ele. No final, ele diz que aqueles anos foram felizes e ninguém se deu conta.

 

Afinal, não temos capacidade de avaliar bem o que seja em meio ao processo. Daí que podemos qualificar de felizes mesmo um período turbulento. No caso do filme, a felicidade consistia no fato de Dario ser criança. Não que eu acredite que ser criança seja aval para a felicidade. Nem sempre. Dario era.

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João Nunes