Publicado 29 de Abril de 2014 - 19h05

Lá se foi seo Felipe. Lá se foi ele, meu sogro terno e caladão, pela estrada do sem-fim. Imagino-o com as mãos cruzadas às costas, a cabeça baixa — não de quem está alquebrado, mas de quem anda olhando o chão: pelo caminho talvez surja uma moeda, uma folha seca, uma pedra de curiosas arestas, um filhote de passarinho. Coisas que ele, talvez, lenta e cuidadosamente, se abaixe para pegar. Talvez, porque os anos ensinam o que vale e o que não vale a pena.

Lá se foi Felipe, o sangue de mascate árabe do pai misturado à discrição católico-mineira da mãe. Casou-se, criou e educou os filhos, construiu, comprou, vendeu, alugou, arrendou. Queria conforto, mas sem exuberâncias nem floreios: o que bastasse para garantir aos seus uma vida decente. Por vezes exagerava, dizem, em seu comedimento: uma única garrafa de cerveja comprada no supermercado, uma lâmpada incandescente de 20 watts para iluminar um quarto inteiro, uma troca de carro a cada década. Exagero? Que chamem como quiserem. Os anos de vacas muito magras já iam longe, graças a Deus, mas ainda serviam como um lembrete para ele e para os outros: é necessário suor para se conseguir as coisas e para saber o real valor de cada uma delas.

Mas não estou traçando o perfil de um monge, oras: o homem tinha suas paixões e seus prazeres. Um tango de Gardel, tocado no aparelho de som antes do almoço de domingo; a cachaça, adquirida regularmente, com uma periodicidade religiosa, de um intermediário em Arcadas; o pernil, o pé de porco, o feijão tropeiro, o pão de queijo saídos do forno e fogão de minha sogra, cúmplice dos gostos do marido; o cigarro de filtro amarelo, que fumava sentado em um canto da cozinha, meio escondido ao lado da geladeira, de onde observava o mundo, fazia suas conjecturas e tirava suas peculiares conclusões. A voz de barítono, esculpida a cinzel pelos anos e pelo fumo, muitas vezes me lembrava um trovão, menos pelo volume que pela áspera intensidade. Poucas vezes o vi rindo às escâncaras, mas em todas elas enxerguei franqueza, assim como enxergava a bondade no fundo de seus olhos apertados e perscrutadores.

Mas os anos passaram, e o tempo, que erode e consola nem sempre na mesma medida, passou a cobrar seu preço. Amigos e colegas de sua geração começaram a partir, e ele sentiu o baque. Gardel deixou de ser ouvido no início das tardes de domingo na casa de seo Felipe, algo a ver com um desses seus contemporâneos, com quem compartilhava o gosto por histórias de mulheres perdidas e apostas idem. O tal homem havia caído doente, e não ouvia mais tango. Era como se a melancolia “cheia de perdas”* da música portenha tivesse transbordado e invadido tudo, e isso não tinha graça nenhuma.

Por fim, vieram as dores, a debilidade e a doença, e veio a fatídica hospitalização. E vinte e tantos dias depois, na tarde da última quarta-feira, Felipe morreu. No velório, chorei de soluçar, porque senti que a vida, de novo, subtraía alguém que estava no rol de meus afetos. Minha mulher, que enfrentou tudo em meio a muitas lágrimas, mostrou que é feita da mesma fibra do pai: teve espírito para me amparar e ainda fazer um gracejo sobre a desafinação do homem que cantava um hino religioso ao lado do caixão. Chegamos a rir, ainda que meio sem jeito, e pelo menos por um instante o chumbo se desfez.

Lá se foi seo Felipe, o sol da tarde a lhe evidenciar a tez morena, herança de árabes e de portugueses. Lá vai ele, pela estrada do sem-fim, a perscrutar o chão com seus olhos apertados: talvez encontre uma moeda ou uma pedra de formato peculiar; talvez encontre um filhote de passarinho e, com suas mãos de septuagenário, resolva ampará-lo. Assim como gostaríamos que amparasse nossos corações, que se apertaram com sua partida.

*Segundo Ramón Gómez de la Serna (1888-1963)