Publicado 01 de Maio de 2014 - 13h22

Atriz Laura Cardoso mantém seu contrato com a Rede Globo e, enquanto não a chamam para um próximo trabalho, faz teatro

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Atriz Laura Cardoso mantém seu contrato com a Rede Globo e, enquanto não a chamam para um próximo trabalho, faz teatro

Ninguém a conhece por Laurinda de Jesus Cardoso Baleroni, mas por Laura Cardoso, a grande atriz brasileira que foi homenageada esta semana dentro da 18ª edição do Cine PE Festival do Audiovisual, que acontece em Recife/Olinda até esta sexta (2). “Não sei se mereço; digo sem nenhuma falsa modéstia.” Ela já recebeu outras homenagens semelhantes e garante que não isso não a faz pensar em aposentadoria. “Não quero nem pensar em parar.”

Bem, basta ver a agenda da atriz. Segue contratada da Rede Globo e, enquanto não a chamam para um próximo trabalho, faz teatro. Aos 87 anos (nascida em São Paulo em 1927), deixa a casa de quinta a domingo com o mesmo entusiasmo, diz ela, que tinha aos 16 (quando começou a carreira no rádio) para viver Elvira na peça A Última Sessão, de Odilon Wagner, no Teatro Frei Caneca, na Capital paulista.

Ela conta que a peça trata da maturidade sem evitar temas tabus como amor e sexo. “É errado pensar que não se possa amar ou fazer sexo depois de certa idade. Não é porque ficamos velhos que a vida acabou e tem de ficar em casa fazendo tricô; se tem saúde e oportunidade, por que não?.” Ela afirma não ser contra quem faz tricô, mas reconhece que a vida lhe deu outro dom. “E sou muito agradecida por isso, pois tive sorte.”

Simpaticíssima e de bem com a vida, Laura, afirma que trabalhar na idade dela é muito estimulante. E conta que adora passear, ler e ir ao cinema. E, no caso da peça, encontrar os colegas de ofício. A mais nova do elenco, Nívea Maria tem 67 anos. “É uma festa.” E durante a apresentação, se um erra, o outro segura a onda.

A vitalidade abre chance para falar sobre vaidade. Laura afirma que nunca teve dificuldade de encontrar trabalhos, independentemente da idade. “Vejo colegas reclamarem, mas nunca me faltou trabalho.” A falta dele, em alguns casos, têm a ver com vaidade. “Muitas não querem fazer papéis de mais velhas”, declara. E lembra uma frase que ouviu da Tônia Carrero, de que o ator pode fazer papéis com dez anos a mais ou a menos. “Isso é um privilégio.”

Também por conta da vaidade os atores se deixam levar por plásticas cada vez mais cedo. Laura garante que nunca chegou perto de um bisturi. “Gosto de mim do jeito que sou e preciso das minhas rugas, dos meus olhos e da minha expressão marcada pelo tempo; não sou contra quem faz, mas tampouco sou adepta.”

A atriz conhece muito Campinas, onde viveu o único irmão dela. Mesmo depois da morte dele, continua a frequentar a cidade para ver parte da família que mora na cidade. E essa disposição de não parar é que a faz viver bem. “Tenho um ritmo de vida acelerado; quando estou gravando viajo para o Rio, mas estou acostumada; faço isso há mais de 70 anos.”

Ao encerrar a conversa cito dois trabalhos dela de que gosto muito: o filme Terra Estrangeira (Walter Salles e Daniela Thomas, 1995) e a peça Vereda da Salvação, de Jorge Andrade (Antunes Filho, 1993). Os olhos de Laura ficam iluminados e segreda: “Muita gente me diz que gosta mais de Terra Estrangeira do que Central do Brasil (do mesmo Salles, 1999).” E eu lhe digo que concordo. E sobre Antunes, ela afirma que ele é um dos cinco maiores encenadores do mundo. “A peça foi um dos trabalhos de que mais gostei de fazer.”

O JORNALISTA VIAJOU A CONVITE DO FESTIVAL