Publicado 29 de Abril de 2014 - 9h00

Tony Ramos em cena do filme 'Getúlio', de João Jardim

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Tony Ramos em cena do filme 'Getúlio', de João Jardim

Na quinta-feira (1º) chega aos cinemas brasileiros o longa-metragem 'Getúlio', de João Jardim. No domingo (27), ele foi apresentado fora de competição dentro da 18ª edição do Cine PE Festival do Audiovisual, que acontece em Recife e Olinda até sexta-feira (2).

Na apresentação, o diretor tentou traçar paralelo entre os fatos relatados no filme, que se deram nos anos 50, com o Brasil de hoje. Na coletiva de imprensa ele explicou melhor tal paralelo. A intenção, segundo ele, foi falar de um Brasil que sempre existiu e que está “pouco comprometido” com a ética. “O governo não pode ser responsabilizado sozinho pelo País, pois esta também é uma tarefa da sociedade”, afirmou.

Eu pergunto a ele sobre a atribuição de herói dado ao personagem como se induzisse o espectador a esquecer o passado ditador de Getúlio. Os últimos 19 dias relatados no filme significariam a redenção dele, pois foi traído e o fato encaminha para a morte. João Jardim entende que na concepção cristã que se tem de pecado, a morte como punição significa exatamente a redenção, mas o que ele fez de nefasto na política é um tema amplamente divulgado.

O cineasta entende que o recorte foi a maneira de contar a história sem precisar usar o recurso do flashback. “Eu não conseguiria cobrir a história toda do personagem num único filme”, afirma. “Essa lacuna não pode ser preenchida, mas eu lamento que o audiovisual brasileiro não contemple um personagem brasileiro tão extraordinário da forma como merece.”

Coprodução com Portugal, o filme marca os 60 anos da morte de Getúlio Vargas (1882-1954), o que significou incorporar atores portugueses, ou que desenvolvem carreira no país, ao elenco. Entre eles, Thiago Justino, carioca que vive há 20 anos em Portugal. Ele não veio como parte da cota, mas o próprio ator diz que depois de tantos anos ele sentiu estranhamento em relação ao Brasil.

Thiago conta que foi para a Europa numa turnê teatral e acabou ficando por se sentir sem espaço para atuar no Brasil. Negro, ele diz que só era convidado para fazer escravos. “Não havia personagens bandidos ainda”, ironiza. A diretora de elenco de Getúlio o encontrou e o trouxe para viver o tenente Gregório Fortunato, guarda pessoal do presidente. “Foi muito curioso, mas eu via a equipe toda do filme como ‘os brasileiros’, sendo eu mesmo brasileiro”, conta.

Acusação

O filme narra o episódio final de Getúlio Vargas, acusado de mandar matar o maior inimigo do governo. Getúlio passa a ser pressionado por militares e oposição para renunciar. As investigações mostram que a ordem para o atentado partiu do Palácio do Catete e Gregório Fortunato, o homem de confiança, é tido como mandante. Ao lado da filha, Alzira, e colaboradores como Tancredo Neves e o general Zenóbio da Costa, Getúlio tenta se manter no poder e provar a inocência. Diante das ameaças que pedem a deposição, ele se suicida.

* O JORNALISTA VIAJOU A CONVITE DO FESTIVAL