Publicado 30 de Abril de 2014 - 5h30

A história do seo Dito tem um final feliz. Depois de sensibilizar os campineiros com seu drama e receber tratamento emergencial em uma unidade pública de saúde, Benedito Fumbela finalmente foi acolhido em um abrigo de idosos mantido por religiosas, na saída para Valinhos. O octogenário vivia abandonado em um casebre na Ponte Preta. Desnutrido, com visão deficiente e um certo desequilíbrio mental, o homem — solteiro, sem filhos — dependia da ajuda de vizinhos para se alimentar. Os próprios moradores da rua denunciaram o caso à reportagem do Correio, em março.

Quem viu de perto tanto sofrimento, hoje comemora. A reportagem reencontrou o seo Dito na Associação Franciscana de Assistência Social Coração de Maria (Afascom), bem agasalhado, enrolado em um cobertor, e conversando sem parar com os outros idosos que dividem o dormitório amplo. Com outra aparência — cabelo aparado, barba feita, banho tomado —, não lembrava em nada a pessoa que vivia largada no meio de fezes, urina e lixo amontoado.

A instituição, fundada há pouco mais de três anos, funciona na mesma área da conhecida Casa Betânia, que serve de morada para freiras idosas na Vila Georgina. Na chácara, hoje são acolhidos 11 senhores de idade avançada, sozinhos no mundo ou que, por qualquer motivo, não podem ser mais cuidados por parentes. O serviço, mantido com recursos da Prefeitura e donativos de colaboradores, possui uma equipe básica de funcionários — assistentes sociais, psicóloga, nutricionista, fisioterapeuta, cozinheira e cuidadoras —, mas também conta com o trabalho essencial de voluntários, como dois médicos que se alternam periodicamente para as consultas.

Desde que chegou, seo Dito roubou a cena com sua personalidade forte. Rabugento que só vendo, o homem não tem paciência para dar entrevista. Semana passada, na hora de cortar cabelo, exigiu passar na barbearia do Ademir, lá na Ponte Preta, onde sempre foi cliente. A coordenadora do abrigo, a irmã Antonia Cacilda dos Santos, o levou. Mas não foi só isso. Fez questão de passar pelo casebre da Rua Vicente Gagliardi para rever Minhoca e Negão, os dois cães vira-latas que mantinha no quintal.

O reencontro com os mascotes foi emocionante, mas, esbravejando, Dito disse que só voltaria à Afascom se os dois cães fossem com ele. Pois a irmã Cacilda concordou. Os animais, que nos últimos 40 dias foram alimentados pelos vizinhos de sempre, foram ajeitados em um cercadinho nos fundos do terreno. Seo Dito anda até lá e brinca com eles todo dia. Já aconteceu de os cachorros invadirem o quarto à procura de seo Dito, para desespero das cuidadoras.

Então está tudo em paz? Quase. “Lá na minha casa, Minhoca e Negão comiam carne. Aqui, vivem de comer pão”, reclama o idoso à reportagem. E quando os funcionários ao redor caem na gargalhada, Dito fica furioso e expulsa todo mundo do quarto.

Além de reclamar do cardápio dos cães — que, afinal, não se resume apenas a pão, como diz —, seo Dito também é exigente com o servido aos pacientes e se nega a comer quando a cozinheira não traz o que ele quer. Todas as refeições no abrigo seguem as orientações da nutricionista. Mas, quando chegou, o homem exigiu guaraná gelado. Na última terça-feira, antes da reportagem chegar, pediu leite quente, pão com presunto e queijo. Todo mundo atende aos pedidos, na medida do possível. E o pessoal aceita de bom humor o comportamento explosivo de um cidadão que, hoje, carrega os traumas e o sofrimento de toda uma vida.

A assistente social Karina Hashimoto Bettiol conta que seo Dito, acolhido, ainda vai passar por uma série de exames detalhados de saúde e que a própria equipe técnica do abrigo vai tentar localizar algum parente seu. Um sobrinho, talvez, porque é bem provável que ele não tenha mais nenhum irmão vivo, já que ele era o filho mais novo do casal Maria e José Fumbela, que viveram na roça, na região de Espírito Santos do Pinhal. Mas, se nenhum parente for localizado, Dito continuará ali, na Afascom. Enquanto viver, tratado com a maior dignidade.