Publicado 30 de Abril de 2014 - 5h30

Tudo o que se tem dito e escrito a respeito do mensalão do Partido dos Trabalhadores compõe um episódio marcante da história política brasileira, por expor de forma clara e incontroversa o repugnante modelo de barganhar apoio parlamentar aos governos, prática consagrada na vida pública, que até então não se supunha tão descarada e evidente. O longo julgamento que levou personalidades políticas, empresários e figuras eminentes do partido à cadeia foi emblemático e transformou o modo como a sociedade encara seus representantes.

De todos os acontecimentos vindos a público, sempre se destacou a forma como o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu blindar-se dos efeitos do escândalo, ele que chegou a admitir que a batalha estava perdida. Por capricho do destino e por consenso que envolveu até mesmo líderes da oposição, optou-se por deixar Lula de fora, como forma de preservação institucional.

Nunca ficou clara a posição de Lula no caso. Por óbvio e natural envolvimento, afinal, o esquema estava armado pelo seu chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, e pelo presidente do PT, José Genoino, Lula deveria ser respingado pelas acusações. Adotando uma imponderável posição de negar o conhecimento do fato, aliada à sua natural empatia com a população, conseguiu safar-se incólume, mesmo à custa de queimar seus companheiros mais próximos.

Mas o que parecia uma esperta estratégia política aos poucos se revela uma característica de caráter. Vendo a derrocada de seu partido no conceito popular, Lula não ergueu a voz para defender seus companheiros, e mesmo o partido durante o julgamento. Mas agora, às vésperas de uma eleição, o ex-presidente dá uma entrevista à televisão portuguesa onde afirma que o julgamento do mensalão foi 80% político e 20% jurídico. Sobre os condenados, afirmou que “não se trata de gente da minha confiança”. Essa demonstração deverá ter um peso muito grande dentro de seu Partido dos Trabalhadores. Para os adversários, foi uma grande falha de caráter.

Para todos os efeitos, Lula não errou totalmente. O episódio do mensalão teve clara conotação política, e não poderia ser diferente. Mas o processo que se desenrolou desde 2012 — que culminou com o desmantelamento do grupo espoliador — foi totalmente jurídico, em decisão tomada pela mais alta corte do País, aliás, composta em sua maioria por ministros indicados por ele próprio. Negar isso é contradizer as instituições. O julgamento do mensalão condenou os petistas de forma irrefutável, por completo, tanto política como juridicamente.