Publicado 30 de Abril de 2014 - 23h13

Por Rogério Verzignasse

Emerson Fittipaldi, Alain Prost, Gerhard Berger e Rubens Barrichello estão entre os pilotos, amigos e parentes que carregaram o caixão com o corpo de Senna

Alexandre Battibugli/AAN - 5/5/1994

Emerson Fittipaldi, Alain Prost, Gerhard Berger e Rubens Barrichello estão entre os pilotos, amigos e parentes que carregaram o caixão com o corpo de Senna

Passava um pouco da meia-noite. E fãs anônimos de Ayrton Senna já disputavam lugar no alambrado, na esperança de assistir o pouso do avião que trazia o esquife com o corpo do tricampeão. Gente que, provavelmente, nunca tinha pisado em um autódromo. Era uma galera muito humilde: roupas esgarçadas, tênis encardidos. Durante a madrugada, o saguão de embarque, os cafés e o entorno do aeroporto foram lotando. Havia trupes: gaúchos vestindo trajes típicos, torcidas uniformizadas de times nordestinos. E iam chegando, aos montes, centenas e centenas de moradores de São Paulo, aquela profusão imensa de crenças, cores e sotaques. Todo mundo estava ali para dizer adeus ao ídolo que partia.

O MD 11 gigantesco da Varig se aproximou escoltado por dois caças e pousou em Cumbica às 6h12. Todos os passageiros da aeronave desembarcaram. Em seguida, o caixão foi retirado do avião e ajeitado na viatura do Corpo de Bombeiros. A partir daquele momento, São Paulo parou.

 

No caminho até o velório na Assembleia Legislativa o cortejo foi acompanhado por pessoas que tomavam acostamentos, pórticos de sinalização, viadutos, adutoras sobre o rio, praças. Era muita gente. Um milhão, talvez. Nunca se viu nada igual. Uns choravam compulsivamente. Outros permaneciam calados, estáticos, incrédulos.

Quando o esquife chegou à Assembleia, por volta das 9h30 daquela quarta-feira, 4 de maio de 94, uma multidão se aglomerava na rua. Havia faixas com mensagens penduradas nas árvores, recortes de jornal com fotos do ídolo afixados em paredes e grades. Até o fim do dia, e noite adentro, os paulistanos, em fila, passavam próximos do esquife e se despediam. Celebridades e anônimos compartilhavam a mesma dor.

Na manhã seguinte, o caixão deixou a Assembleia e o cortejo seguiu até o Cemitério do Morumbi. Os paulistanos formavam imensos cordões humanos ao lado de avenidas estratégicas e acompanharam o novo cortejo, que durou uma hora e meia. O povo acenava das calçadas, janelas, muros, telhados.

Dentro do cemitério, só havia parentes, amigos íntimos, autoridades e cerca de três mil jornalistas do mundo inteiro. Mas uma multidão permaneceu concentrada do lado de fora, exibindo fotos e faixas.

Do portão até a área do jazigo, o esquife foi conduzido e acompanhado por astros do automobilismo, de todos os tempos: Emerson Fittipaldi, Alain Prost, Jackie Stewart, Gerhard Berger, Damon Hill, Michele Alboreto... No grupo também havia garotos como Rubens Barrichello e Pedro Lamy, atordoados, como alunos que acabavam de perder um mestre.

O caixão foi depositado no jazigo 11, quadra 15, setor 7 do Cemitério do Morumbi. Os aviões da Esquadrilha da Fumaça desenharam um coração no céu. Na lápide da sepultura, havia um salmo encantador: “Nada pode me separar do amor de Deus”. O Brasil acabava e sepultar seu ídolo.

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Rogério Verzignasse