Publicado 30 de Abril de 2014 - 22h54

Por Rogério Verzignasse

Carlos Zuffo mantém o apartamento onde mora em Campinas decorado com várias lembranças de Ayrton Senna, como bandeiras e réplicas de objetos usados pelo piloto

César Rodrigues/AAN

Carlos Zuffo mantém o apartamento onde mora em Campinas decorado com várias lembranças de Ayrton Senna, como bandeiras e réplicas de objetos usados pelo piloto

Carlos Zuffo, santista de nascimento, mora em Campinas desde que tinha 6 anos. Hoje tem 44 e trabalha como gerente de um posto de gasolina, na Ponte Preta. Quem passa por ali e abastece o carro nem percebe. Mas aquele cidadão é um dos maiores — senão o maior — fãs campineiros de Ayrton Senna.

Menino ainda, Zuffo se imaginava um piloto de Fórmula 1 quando descia a ladeira de carrinho de rolimã. Não perdia uma corrida na TV. E, na adolescência, na segunda metade dos anos 80, ficou vidrado de ver o Senna acelerando em pista molhada, e dando show mesmo quando dirigia a modesta Toleman. “Senna, na pista, era exatamente o piloto que eu sonhava ser quando moleque: destemido, ousado”, fala.

Bom, o rapaz lia tudo que publicavam sobre o ídolo. Conhecia em detalhes a história de vida do astro. Colecionava artigos, fotos, revistas, fitas de vídeo. Pois a namorada Oneida — que Zuffo conheceu na faculdade de análise de sistemas, em Itatiba — se rendeu e também passou a frequentar autódromo e organizar a coleção. No dia 1º de maio de 94, aconteceu a tragédia.

Zuffo, que sonhava trabalhar na IBM, chegou a fazer 13 entrevistas na empresa antes de ser contratado como estagiário no novíssimo departamento que desenvolvia softwares sobre inteligência artificial. Ele trabalhava havia pouco mais de um mês quando o Senna morreu. Pois Zuffo nem conseguiu trabalhar na segunda-feira: passou o dia chorando copiosamente. E tomou uma decisão radical, ainda que perdesse o emprego: tinha de se despedir ídolo. Botou uma troca de roupas na mochila, se embrulhou na bandeira brasileira e partiu para São Paulo.

Varou a primeira noite no aeroporto e a segunda no velório. Entrou na fila uma seis ou sete vezes para passar ao lado do esquife, fazer o sinal da cruz e mandar um beijo para o falecido. E, da Assembleia Legislativa até o Cemitério do Morumbi, ele foi andando, chorando sem parar.

Como milhares de fãs, ele foi barrado no portão. Não viu o sepultamento. Mas passou a noite no relento, até conseguir se aproximar da sepultura, na manhã do dia 6. E só saiu de lá quando o cemitério fechou as portas, no fim do dia.

Na segunda-feira seguinte, cedinho, ele foi de carro até a IBM. Entrou na repartição com duas caixas de papelão para recolher os pertences da mesa, pois sabia que seria demitido. Para sua surpresa, tanto o gerente quanto os 15 funcionários do setor o confortaram, lhe entregaram dezenas de artigos e fitas sobre o sepultamento do piloto. E Zuffo foi mantido no estágio até o final do ano. Só saiu porque quis, para assumir a gerência do posto, que pertence a parentes.

Carlos Zuffo se casou com a Oneida dois anos depois. Hoje, ele mora em apartamento totalmente decorado com objetos que fazem referência ao piloto: estátuas, troféus, miniaturas, bandeiras, capacete, livros, fotografias, quadros. O espírito do Senna está por todo canto. E até seus filhos Gustavo e Enzo (de 12 e 10 anos) cultuam o piloto, de tanto ouvir o pai. “Antes, eu sonhava em ter um filho chamado Ayrton. Mas a Oneida impôs: seria uma carga muito pesada para o menino carregar, a vida toda.”

Hoje, Zuffo conta que ainda vê corridas. Admira Alonso, Vettel, Hamilton. Mas sabe que nenhum deles chega aos pés de Senna. “Senna talvez não tenha sido o melhor piloto. Também não era um santo: sempre provocou polêmicas, brigou, despertou inimizades e inveja. Mas aquele era o segredo. Ele mostrava que todo ser humano, cheio de defeitos e frustrações, podia ser um campeão”, fala.

NA LEMBRANÇA

“Eu conheci o Senna correndo de kart, na década de 70. Éramos garotos. Compartilhamos o mesmo ajustador de motores, e competíamos nas mesmas provas. Na década seguinte, Senna se mudou para a Europa e começou a carreira brilhante. Volta e meia me telefonava. A amizade era a mesma, mesmo longe. E apesar da gente nunca mais ter se encontrado. Não me esqueço da tragédia em Ímola. Eu sei: ele morreu na hora. E a corrida só não foi suspensa para preservar interesses de patrocinadores da prova. Mas sempre foi assim. Quem abraça o automobilismo sabe que corre o risco de morrer. Se é que serve como consolo, Senna corria em primeiro quando bateu. E ficou para sempre em primeiro, na memória dos brasileiros.”

Jefferson Elias

Campeão brasileiro das fórmulas Ford e Volkswagen, nos anos de 1980 e 1986, hoje mantém em Americana um circuito de corrida de veículos por rádio-controle.

“Senna era nosso ídolo. Meu e do meu marido João. Eu tinha 30 anos e estava de licença maternidade. Meu filho tinha nascido no dia 18 de abril. Naquele 1º de maio, eu estava na casa da minha mãe para o almoço de domingo. Na hora da corrida, todos na sala, olhos grudados na TV. Eu estava amamentando e aí... o acidente. O João, meu marido, falou: 'Vamos, Senna, sai logo deste carro'. Mas ele não saiu. Fui para o quarto chorar e cuidar do meu filho. Mais tarde, veio a confirmação da morte. Nossa, quanto choramos! O dia todo, a semana toda. Aliás, se penso nisso, choro. Como agora, por exemplo...”

Cláudia Daros Fidélis

Professora

“Na semana anterior à morte de Senna, ele apresentou à imprensa carros da Audi, que estava trazendo para o Brasil. O test-drive foi em Interlagos. Eu, que trabalhava no suplemento de veículos do Diário do Povo, me atrasei para a solenidade. Quando entrei na sala, não havia lugar. Fiquei em pé, no fundo. Foi quando o próprio Senna me viu e me chamou para sentar em uma poltrona na sua frente. No final, ganhei dele mesmo um kit com brindes: uma camiseta, um relógio e uma caneta. Eu, que nunca me apeguei a objetos, doei tudo aos amigos da redação quando voltei a Campinas. Uma semana depois, Senna morreu. E eu lamentei demais não ter guardado os brindes, lembranças daquele dia que o vi e apertei sua mão."

Sidnei Flaibam

Consultor e assessor de imprensa, que trabalhava em 94 como repórter do Jornal do Automóvel, suplemento semanal que era encartado no Diário do Povo.

Escrito por:

Rogério Verzignasse