Publicado 04 de Maio de 2014 - 1h46

O tucunaré, peixe que habita os rios amazônicos, é conhecido como mais poderoso da água doce

Divulgação

O tucunaré, peixe que habita os rios amazônicos, é conhecido como mais poderoso da água doce

O turista brasileiro que viaja no feriadão ou nas férias gosta mesmo é de torrar a pele sob o sol do Litoral nordestino ou encher a mala de compras em Orlando ou ainda visitar os milhares de museus da Europa, certo? De acordo com as estatísticas do Ministério do Turismo, sim. Porém, uma crescente parcela de viajantes tem preferido arrumar a mala com caniço, vara, entre outros apetrechos, e ter em mente um rio ou mar onde seja possível pôr em prática uma das atividades com maior potencial de expansão para o turismo brasileiro: a pesca recreativa. “As condutas, os valores e os comportamentos relacionados às práticas de pesca esportiva, que prega, entre outras coisas, o amor pela natureza e a soltura dos peixes. Nesses termos, a proximidade dos pescadores com o universo das águas, a soltura dos peixes, que pode ser interpretada com o valor da liberdade, a disciplina a ser demonstrada nos manejos dos equipamentos, a tradicional paciência etc podem ser apontados como fortes motivos para o aumento do número de amantes da pesca. Além disso, com exceção de locais com forte poluição de rios e lagos, a pesca ainda é um passatempo acessível para um grande segmento de brasileiros. Não é à toa, por exemplo, que o esporte da pesca, até bem recentemente praticado por homens somente, agora passa a ser assumido por mulheres brasileiras, num crescimento exponencial”, explica Ezequiel Theodoro da Silva, professor-doutor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em pesca recreativa.

 

Foto: Divulgação

O tucunaré, peixe que habita os rios amazônicos, é conhecido como mais poderoso da água doce

O tucunaré, peixe que habita os rios amazônicos, é conhecido como mais poderoso da água doce

Ao contrário dos Estados Unidos, cujo setor movimenta cerca de US$ 24 bilhões todos os anos e conta com 60 milhões de pescadores licenciados, o Brasil ainda engatinha no desenvolvimento de roteiros e infraestrutura para os turistas que preferem empunhar um molinete a muitos quilômetros de casa. “Faltam fundamentalmente, políticas governamentais, programas e ações bem direcionados para as nossas necessidades. O atual Ministério da Pesca e Aquicultura tem se demonstrado inoperante, um zero à esquerda, na construção e implementação de políticas para a esfera da pesca recreativa (esportiva, desportiva ou amadora). Outra razão: o número insignificante de pesquisas genuinamente nacionais focando a vida aquática em sua relação direta com as práticas de pesca recreativa nas diferentes regiões brasileiras. Investigações de natureza econômica, que apontem concretamente as cifras geradas pela pesca amadora, também inexistem. Nessas esferas existem muito mais indagações, elucubrações e dúvidas do que respostas objetivas que fundamentem as decisões e ações das autoridades”, critica o especialista.

Apesar de não ter todo seu potencial explorado, o turismo de pesca vem crescendo no Brasil. Dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) mostram que, entre 1996 e 2011, o número de pescadores amadores licenciados saltou de pouco mais de 134 mil para mais de 280 mil. De acordo com a Embratur, cerca de 6 milhões de pessoas pescam atualmente no País e o crescimento do setor é de 30% ao ano. “Creio que esse crescimento seja até maior, considerando o grande número de licenças de pesca expedidas anualmente. Sempre é bom lembrar que mesmo com os sérios problemas relacionados à depredação do meio ambiente, a pesca como lazer tem demonstrado uma grande capacidade de resiliência, sendo ressignificada através de novas práticas e modalidades. Vale destacar que precisamos muito de pesquisas mais sofisticadas que mostrem objetividade as facetas de realidade da pesca recreativa brasileira”, afirma Silva.

Para quem é pescador de primeira viagem, o Turismo elencou alguns dos destinos clássicos para o turista que deseja se aventurar nesse tipo segmentado de viagem, que além de belas paisagens, rende também boas histórias de pescador.

 

Pantanal

O destino mais conhecido para pescar no Brasil é, sem dúvida, o Pantanal. Um clássico e meca para todos os tipos de pescadores, do iniciante ao mais experiente. No Pantanal, a pesca pode ser realizada quase que durante todo o ano, mas a temporada oficial vai de março a outubro. E é em março que começa a vazante do Pantanal, período caracterizado principalmente pela pesca do Pacu. De acordo com turistas que visitam o destino há muitas temporadas, a pesca, nessa época do ano, pode ser feita das margens, com equipamentos mais básicos, ou em poços profundos do rio, utilizando vara e molinete. Com a chegada da vazante, no Pantanal também é possível investir na pesca de peixes de fundo de rio, como o pintado, o dourado e o surubim. Para encontrar essas espécies, o ideal é deixar o barco fluir pela correnteza, técnica conhecida como pesca de rodada. No decorrer do ano, a pesca fica favorável a outras espécies como o barbado, nos meses de junho e julho. Mas é em outubro, quando se encerra a temporada, que o rio mostra toda sua diversidade de espécies. É o momento em que o pescador pode praticamente escolher o que deseja pescar. Como um destino consolidado, o Pantanal dispõe de uma estruturada rede hoteleira e de serviços que atendem muito bem o visitante.

Ita Ibaté

O turista que deseja pescar fora do Brasil deve começar pela Argentina. A cidadezinha de Ita Ibaté, a mais de mil quilômetros de Buenos Aires na província de Corrientes, é um dos lugares mais procurados no mundo para a prática. O destino, no alto do Rio Paraná, tem peixes de grande porte e variadas espécies, entre dourados, pintados, piracanjubas e pacus. As técnicas também são variadas, como a de rodada, fundeada, de arremesso e fly fishing, e são realizadas basicamente de embarcações de fibra de vidro. O acesso mais fácil do Brasil é por estrada, a partir de Foz do Iguaçu, distante 450 quilômetros. Ita Ibaté tem uma grande oferta de pousadas, desde as mais simples, até as mais confortáveis, com ar-condicionado, TV a cabo e internet. Na Argentina, também é necessária licença para a pesca e o documento emitido no Brasil não é válido no país vizinho. Porém, a maioria das pousadas, hotéis e agências especializadas em pesca recreativa dispõem de serviço de despachante.

 

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Piracanjuba, encontrado em Ita Ibaté, na Argentina

Piracanjuba, encontrado em Ita Ibaté, na Argentina

Santa Catarina

O pescador que já se aventurou pelos rios brasileiros pode ampliar seus horizontes embarcando em uma pesca marítima. Com a chegada do Inverno, um dos destinos mais procurados no País é o Litoral de Santa Catarina, especialmente na região da Baía de Babitonga. Os pescadores dizem que no mar, os peixes são mais brigões, entre eles as sororocas, que habitam, principalmente o entorno de pequenas ilhas. Na mesma faixa litorânea ficam as anchovas, as bicudas e os espadas, que exigem uma técnica de pesca de fundo e uma certa paciência. Para a pesca da bicuda é necessário um cabo de aço, pois esse peixe possui dentes afiados e é conhecido por romper facilmente as linhas. A pesca da anchova e da bicuda concentra-se basicamente durante as primeiras horas do dia. Já a pesca do espada, além de trabalhosa e ser considerada um verdadeiro balé entre pesca e pescador, costuma entrar noite adentro. Como um jogo de xadrez, exige movimentos de ambos os lados, e vence quem tiver maior habilidade e paciência. A pesca do espada demanda linha muito resistente e anzol de aço, devido à incrível força e resistência desse peixe.

Amazônia

Após “estrear” no clássico Pantanal, o sonho de muito pescador é jogar o anzol nos rios amazônicos, entre eles, é claro, o Amazonas, o maior do mundo. A grandiosa e mítica floresta é o habitat do tucunaré, peixe conhecido como o mais poderoso da água doce e cujas lendas a seu respeito aguçam ainda mais o desejo de enfrentá-lo em uma dura batalha nas caudalosas águas amazônicas. Apesar de ser uma espécie de médio porte, em algumas partes da Amazônia, esses peixes podem atingir proporções gigantescas, pesando quase 100 quilos, o que torna a pesca ainda mais atrativa. Na região, a pesca pode ser praticada nos rios Amazonas, Negro e Solimões, além dos afluentes Padauari, Urubaxi, Aiuanã e Uneiuxi, entre outros. A pesca na Amazônia requer um planejamento, que inclui o apoio de guias. Apesar de estar longe dos grandes centros, a região tem opções de hospedagem que vão de pousadas bem simples a resorts cinco estrelas no meio da mata. Há também hotéis flutuantes e até dentro de barcos, nos quais o turista permanece no rio durante toda sua estadia, desembarcando apenas na hora de tomar o avião de volta para a casa. Existem roteiros para todos os gostos e bolsos, desde os mais rápidos de três a quatro dias, aos mais longos, de até 15 dias. Tudo irá depender de onde o turista quer chegar e quanto tempo deseja ficar. O roteiro mais básico é o de oito dias, dos quais cinco deles são dedicados inteiramente à pesca.

 

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Peixe espada, cuja pesca é uma verdadeira dança entre pesca e pescador

Peixe espada, cuja pesca é uma verdadeira dança entre pesca e pescador

 

Prática, mesmo para recreação,requer licença

A pesca amadora foi regulamentada em 2009 pelo Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) e para praticá-la, é necessário a emissão de uma licença. Deve requerer a licença todo pescador que utilizar varas, molinetes, carretilhas, entre outros apetrechos. A validade do documento é de um ano, e é dispensada da licença apenas a pesca com linha de mão. O valor para a emissão da licença é de R$ 60,00 e estão dispensados de pagar a taxa as mulheres maiores de 60 anos, homens maiores de 65 anos e aposentados, desde que comprovem aposentadoria. O serviço de emissão da Licença de Pesca Amadora está disponível no site do ministério: www.mpa.gov.br. 

 

Saiba mais

 

O pescador não deve esquecer:

Quem passa muito tempo ao ar livre, deve usar o protetor solar, além de se hidratar com água, potável, e em regiões com incidência de mosquitos, o ideal é usar repelentes. Importante também é utilizar roupas e calçados confortáveis, porém, adequados para o local da prática. Antes de viajar, é preciso saber a necessidade de vacinas. Por exemplo, para pescar na Amazônia, é necessário vacinar-se contra a febre amarela. Em outros destinos, vacinas como a da hepatite e tétano podem ser obrigatórias ou opcionais.