Publicado 01 de Maio de 2014 - 9h00

Édouard Lock é fundador da companhia canadense de dança La La La Human Steps

Camila Moreira/ AAN

Édouard Lock é fundador da companhia canadense de dança La La La Human Steps

Édouard Lock é um dos mais importantes coreógrafos de dança contemporânea do mundo. Nascido no Marrocos, em 1954, mas naturalizado canadense, o fundador e diretor da prestigiada La La La Human Steps já trabalhou com as maiores e melhores companhias do mundo, entre elas a Ballet de L’Opéra de Paris, Het Nationalle Ballet e Nederlands Dans Theater, além de grandes astros da música, como David Bowie e Frank Zappa. Dessa vez, ele escolheu a São Paulo Companhia de Dança (SPCD) para desenvolver sua mais recente criação: o espetáculo The Seasons, que teve estreia mundial em Campinas na semana passada, com sessões esgotadas. Com uma linguagem coreográfica caracterizada por mesclar dança, artes visuais e efeitos de iluminação, Édouard disse ao Caderno C desconhecer o motivo para tanto prestígio ao redor do mundo, já que apenas segue seus instintos. Mas conclui que o diferencial de qualquer bailarino é a inteligência e que foge de profissionais com muita técnica e pouca ousadia.

Caderno C — Você trabalhou em inúmeros países e com muitas companhias de dança diferentes. Como tem sido trabalhar no Brasil?

 

Édouard Lock — Trabalhar aqui é ótimo. Eu sempre tive uma opinião bastante positiva do Brasil, desde a época que fazia turnês por aqui nos anos 80 e no começo dos anos 90. Vocês são muito receptivos, cheios de energia, então é ótimo. Essa companhia de dança em particular (SPCD) é séria na forma de trabalhar, gosta de ver tudo feito de forma eficiente, os dançarinos têm mente aberta, não se importam em tentar novas coisas, inclusive técnicas diferentes, o que é bom. Então não tenho do reclamar.

A que você atribui o sucesso da sua companhia?

 

Eu não tenho ideia. De verdade. Eu tento seguir o que acredito, porque você não sabe o que faz as pessoas virem ou não a um espetáculo. Você precisa fazer algo de que goste, algo que sinta prazer e que acredite que as pessoas de fora vão gostar. Tentar se comunicar com a plateia é algo primordial. Mas é impossível saber se o seu trabalho será popular ou bem-sucedido. É algo realmente difícil de dizer. Por isso não me preocupo em achar uma razão, mas seguir os meus instintos.

Você acredita que as plateias e suas opiniões em relação à dança têm mudado muito ao longo dos anos?

 

Para mim, a quantidade de informações que as pessoas estão recebendo tem crescido tanto, e constantemente, que a gente começa a ver muita interferência entre o palco e a plateia. Quando eu comecei, a dança era algo muito específico e agora você pode vê-la em qualquer lugar. A dança é encontrada em filmes, em esportes, na política... Essencialmente, toda vez que o corpo está se mexendo, está sendo criado algo para demonstração, e essa demonstração pode ser interpretada de inúmeras formas. A diferença agora é que você pode conectar grandes blocos de informação, de formas mais e mais complexas, e bombardear a sociedade com eles, gerando conclusões ou pensamentos difusos, criando coisas mais volúveis e efêmeras.

Tudo isso então está prejudicando a área, digamos assim?

 

Depende. Quanto mais informações você conseguir processar, mais vão existir oportunidades de suas ideias serem aceitas. Francamente, eu acho que estamos olhando para uma série de camadas, e algumas coisas funcionam e outras não em diferentes países e companhias. Há espetáculos que conversam melhor globalmente, em cultura, em tradição, em hábitos. É fácil para coreógrafos e bailarinos compartilharem ideias aqui, por exemplo. É fato que as cabeças são mais abertas.

 

Dança e música normalmente caminham juntas, como uma tradição. Você já disse, entretanto, em outras ocasiões, que elas podem caminhar separadas e inclusive usou desse artifício em algumas partes de 'The Seasons'. Por quê?

Eu não sou o único que diz isso e, na verdade, há muitas pessoas que vieram antes de mim com essa afirmação, alguns dos profissionais que mais influenciam na área. Para mim, tradição é algo que você não questiona, porque tem sido assim por muito tempo. Basicamente, se você perguntar a um compositor se ele pode compor uma música sem um bailarino, ele vai olhar para você e dizer: claro. O contrário, por outro lado, é meio que inaceitável. Mas é preciso ter um balanço, entender que as coisas não são bem assim. A verdadeira razão, para mim, para a existência dessa tradição, é que a dança depende em alguns pontos da música para despertar certas emoções. A música é quente para a mídia. Eu estava trabalhando com o (compositor) David Lang e ele me disse: eu posso fazer qualquer um aqui se sentir triste com uma música, mesmo que ninguém tenha motivo para isso. Eu só preciso colocar algumas notas juntas e elas se sentirão tristes. Isso prova o quanto a música é emocional.

Você consegue fazer o mesmo só com a dança?

 

Não. Eu acho que os olhos são frios para a mídia, mas não sei te dizer por quê. Nós, da dança, dependemos dos olhos para sobreviver, mais do que dos ouvidos. Há estudos sobre a música que definiram a sua estrutura, assim como há para a coreografia, uma estrutura baseada no visual. Você pode ouvir uma música e ser transportado para alguma emoção, mas se você assistir uma dança sem música, certamente será uma experiência mais fria. Então é tentador deixar que a música influencie a sua percepção sobre a dança. Se você quiser, porém, ver a real ambição de uma coreografia, então é melhor você tapar seus ouvidos com os dedos. Todo aquele poder vai desaparecer, ou melhor, será transportado diretamente para o que você estiver vendo, para o poder da dança. Isso é algo perigoso, mas é por isso que eu crio a coreografia separadamente da música, para apresentar ao público mundos diferentes, o da dança, o da música, e então as pessoas decidem o que eles preferem, sem criar essa dependência falsa que existe entre elas. Nós gastamos muito tempo colocando coisas juntas que não têm nenhuma relação entre elas e o palco é um ótimo exemplo disso. Acredite, entretanto: dança não está relacionada com a música. Quando eu convido um compositor para fazer as músicas e ele diz sim, então ele trabalha e eu trabalho, e no final a gente coloca junto, sem que tenha havido nenhuma colaboração entre a gente.

Conversando com a Inês (Bógea, diretora da SPCD), ela me disse que você constrói a coreografia no corpo do bailarino, de forma a explorar a personalidade e individualidade deles. Como é isso?

 

Bailarinos são pessoas. Você está lidando basicamente com diferentes mundos, que tem em comum apenas a técnica, já que foram educados em cima de certos elementos e técnicas que são inalteráveis. Mas as proporções são diferentes, as atitudes, as habilidades. É um erro tentar universalizar a coreografia em uma companhia, assumir que todos têm que fazer exatamente a mesma coisa, da mesma forma. Certamente, é um erro. Você pode encontrar pontos em comum que conectem essas pessoas, mas deve assumir que a coreografia pode ser facilmente interpretada de jeitos diferentes pelos indivíduos. Eu já trabalhei com muitas companhias, com bailarinos com uma técnica elevadíssima, mas, ainda assim, eles não podem percorrer a coreografia de forma única.

Com base nisso, o que você procura em um bailarino?

 

Inteligência. Como eu disse, lidamos com pessoas. Elementos técnicos são os formatos ideais e, de certa forma, os símbolos usados. Mas quando você pega esses símbolos e coloca em uma coreografia, tudo vem carregado com outras complexidades. Vamos encarar a realidade: todo mundo que entra em um palco quer sentir que está fazendo um bom trabalho. O problema é que a plateia entende o que são erros, e nós erramos o tempo todo. Erramos no dia, na semana, no mês, na vida. Então, pensando em carisma, e em apresentar algo que fuja disso, muitos bailarinos não se arriscam, ficam o tempo todo no estado onde conseguem manter o controle da situação. Isso acontece em muitos palcos do mundo. A plateia senta e aprecia esse tipo de espetáculo, sem riscos. Mas quando o bailarino se arrisca, chega ao limite do seu controle, ele abre outros mundos em cima do palco, outras percepções que a audiência vai rapidamente captar. É mais visceral. Para chegar nesse patamar, o bailarino precisa aceitar esse fato e quais serão as consequências, boas e ruins. É tudo uma questão de empatia com o público. Algo bastante difícil de entender.

Os bailarinos normalmente dizem que a dança os escolheu e não o contrário. Funcionou da mesma forma com você e a coreografia?

 

Sem dúvida. Eu tive meu primeiro contato com a coreografia na universidade, e eu estudava literatura, queria escrever, e nunca tinha tido contato com a dança. Na grade, havia a possibilidade de fazer um curso de dança e foi quando tive contato com a bailarina Nora Hemmingway, que foi minha professora. Ela tinha uma forma de ensinar que extrapolava as técnicas e se aprofundava na paixão em fazer aquilo, me apresentando um mundo completamente novo. Eu não vi essa vontade de criar chegando, num determinado momento, quando me dei conta, ela simplesmente estava lá. Então acho muito válido dizer que, às vezes, você é escolhido e não aquele que faz as escolhas.