Publicado 29 de Abril de 2014 - 19h57

Por France Press

Ativistas pró-Kiev entram em confronto com soldados russos

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Ativistas pró-Kiev entram em confronto com soldados russos

O caos continua a reinar na Ucrânia, onde milhares de manifestantes pró-russos assumiram o controle de vários edifícios públicos em Lugansk, enquanto o presidente russo, Vladimir Putin, advertia que as novas sanções americanas e europeias poderão afetar as empresas de energia ocidentais.

Na TV russa, Putin também disse acreditar na libertação em breve dos observadores da OSCE (Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa) mantidos em poder de militantes pró-Rússia na cidade de Slaviansk, no leste ucraniano.

"Se isto continuar, é claro que teremos que pensar como (as empresas estrangeiras) trabalham na Federação Russa, principalmente em setores-chave da economia russa, como a energia", acrescentou Putin, afirmando que não há "instrutores russos, nem unidades especiais, nem tropas" russas na Ucrânia.

"Espero que este conflito seja resolvido e que eles sejam capazes de deixar livremente o território", disse ainda.

Em Lugansk, capital regional de meio milhão de habitantes, milhares de ativistas pró-russos invadiram a sede da Prefeitura local, hasteando uma bandeira russa, constatou um jornalista da AFP.

"Não queremos esta junta de nazistas que tomou o poder em Kiev. Eu quero que meus filhos e netos cresçam na Rússia", comentou uma engenheira aposentada que assistia à cena.

Vários deles foram depois para a sede da polícia de Lugansk e tomaram o local, recebendo o apoio de cerca de trinta homens fortemente armados.

Cercados, os policiais ucranianos que estavam no prédio saíram desarmados.

Os edifícios da televisão pública e da Procuradoria também foram ocupados, segundo testemunhas.

Em Kiev, o presidente interino da Ucrânia, Olexander Turtshynov, denunciou a "falta de ação", ou mesmo a "traição", das forças de ordem no leste do país.

"Os eventos no leste ilustram a falta de ação, a impotência e, às vezes, a traição criminosa das forças de ordem nas regiões de Donetsk e Lugansk", declarou em um comunicado.

No total, as forças pró-russas ocupam os prédios públicos de doze cidades do leste.

Segundo a imprensa ucraniana, ativistas pró-russos também ocuparam a Prefeitura da cidade de Pervomaisk, perto de Lugansk.

Neste contexto de tensão, continua incerto o futuro dos observadores da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), detidos desde sexta-feira por separatistas em Slaviansk.

O secretário-geral da OSCE, Lamberto Zannier, reuniu-se nesta terça-feira em Kiev com o ministro ucraniano das Relações Exteriores, Andrei Dechtchitsa, que exigiu a "libertação imediata dos reféns", sete estrangeiros e quatro ucranianos.

Em Slaviansk, o líder separatista da cidade indicou que houve "progressos significativos" nas negociações para a libertação do grupo.

"Registramos progressos significativos e um diálogo produtivo", declarou o prefeito auto-proclamado da cidade, Viatcheslav Ponomarev.

A embaixada dos Estados Unidos em Kiev chamou de "terrorismo" o sequestro dos observadores da OSCE por separatistas ucranianos pró-Moscou.

"É terrorismo, pura e simplesmente", denuncia em um comunicado a embaixada ao se referir à situação no leste da Ucrânia, onde nesta terça 3.000 manifestantes pró-Rússia ocuparam um prédio da administração regional de Lugansk.

Cosmonautas americanos "expostos"

Em Moscou, várias autoridades acusaram os países ocidentais, que anunciaram novas sanções contra a Rússia, de ressuscitar a política da 'Cortina de Ferro' e de levar a Ucrânia, no centro da disputa, a "um beco sem saída".

"Rejeitamos as sanções, em particular, aquelas que foram adotadas pelos Estados Unidos e a União Europeia contra qualquer senso comum a respeito dos acontecimentos na Ucrânia", afirmou o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, pouco depois de desembarcar em Cuba.

A Rússia acusou inclusive o governo dos Estados Unidos de colocar em perigo seus astronautas na Estação Espacial Internacional (ISS).

"Se eles querem atingir o setor russo de mísseis, eles vão, automaticamente, expor seus cosmonautas da Estação Espacial Internacional", declarou Dmitri Rogozine, vice-primeiro-ministro russo.

As espaçonaves russas Soyuz são atualmente a única maneira de transportar e repatriar a tripulação da ISS.

"Honestamente, eles começam a nos irritar com suas sanções, e não compreendem que elas vão retornar para eles como um bumerangue", afirmou ainda Rogozin, citado pela agência Itar-Tass.

As sanções afetam "nossas empresas e nossos setores de alta tecnologia", declarou Serguei Riabkov, vice-ministro russo das Relações Exteriores.

Mais cedo, Riabkov havia afirmado que os países ocidentais querem retomar a política da 'Cortina de Ferro'.

"É a volta do sistema criado em 1949, quando os países ocidentais baixaram a Cortina de Ferro, cortando o fornecimento de alta tecnologia para a União Soviética e outros países", disse.

"É uma política absolutamente contraproducente, que leva a um beco sem saída a situação na Ucrânia, que já é crítica", disse outro vice-chanceler russo, Grigori Karasin.

A expressão Cortina de Ferro foi utilizada pelos ocidentais durante a Guerra Fria para denunciar a separação entre o leste e o oeste da Europa, instaurada pela União Soviética após o fim da Segunda Guerra Mundial.

A União Europeia (UE) divulgou nesta terça-feira uma nova lista de personalidades submetidas a sanções, que inclui nove dirigentes políticos e militares russos e seis líderes separatistas da Ucrânia.

Os ocidentais acusam a Rússia de "jogar lenha na fogueira" na crise da Ucrânia e de realizar manobras militares suspeitas na fronteira.

De acordo com a Otan, a Rússia concentrou 40.000 militares na fronteira com a Ucrânia.

Mas o ministro russo da Defensa, Serguei Choigu, voltou a afirmar que as forças do país não vão invadir a Ucrânia, durante uma conversa por telefone com o secretário de Defesa americano, Chuck Hagel.

Choigu também desmentiu as afirmações sobre a presença de grupos de sabotagem russos no sudeste da Ucrânia.

A Otan indicou nesta terça-feira que não possui "informações que indiquem que a Rússia tenha retirado suas tropas da fronteira com a Ucrânia".

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