Publicado 29 de Abril de 2014 - 13h01

Por João Nunes

E agora? Lembra-me

João Nunes

E agora? Lembra-me

 O documentário português E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto, dentro do 18ª edição do Cine PE Festival do Audiovisual, que acontece em Recife/Olinda até sexta-feira, é um dos grandes filmes que vi neste ano. Sob todos os aspectos ele não seria uma escolha simples para qualquer espectador: o protagonista tem o vírus HIV e relata o dia-a-dia dele. Não bastasse o tema espinhoso, são nada menos que 2h46 – um convite à fuga.

 

Não fugi porque estou aqui a trabalho, porém, que “prazer e dor” (para citar minha amiga Ivonete Pinto ao referir-se a um texto meu) ver este belíssimo trabalho de um cinema despojado e, ao mesmo tempo, tão rico em suas formulações, reflexões e ações.

 

Primeiro, uma questão técnica: ambos, o próprio diretor e seu parceiro Nuno Leonel, se encarregam de captar as imagens. Quando estão juntos (como na cena de sexo), a câmera está ali, parada captando as sequências. Joaquim foi técnico de som de dezenas de filmes na Europa e Estados Unidos; posteriormente, ele fez curso de cinema e, há 20 anos, vive com o virus.

 

Na narrativa, trata-se de um diário. Confidencial, como seria de imaginar, mas escancarado na sua intimidade, como na bonita cena de sexo. Mas não só – o dia-a-dia de Joaquim e de Nuno está exposto de modo inexorável pelo cinema. E o que vemos? A luta de Joaquim para testar novos remédios contra a doença, mas também sua relação afetiva com o parceiro, amigos, eventuais vizinhos e com quatro cães, que mais parecem filhos.

 

A relação com os cães e a fixação dele por insetos e outros animais estranhos falam de sobrevivência e morte – no caso dos cães, de amizade e solidariedade. Quem me acompanha por aqui sabe que não gosto de cães; menos ainda da relação que os dois amigos tem com eles: dormem na mesma cama, se lambem e se beijam e se agarram – notadamente Nuno –, o que gera profundo incômodo em mim.

 

E, no entanto, a relação é belíssima. Eles estão em sintonia com os animais e com a natureza – e isto não é apenas um discurso ecológico tosco. Nuno rola na grama com os cães, ele que se encarrega de plantar e regar as plantas, ele que foi vocalista de banda de heavy metal, ele tão sensível e tão decisivo, assertivo, o sujeito que comanda e toma decisões, o lado forte e efusivo do casamento.

 

O que há de tão extraordinário na vida desses dois rapazes que nos prendem a atenção por quase três horas? Talvez, de um lado, seja luta de Joaquim para sobreviver na luta insana contra a doença e a busca por remédios. De outro, talvez seja a vitalidade de Nuno trabalhando duramente a terra, resolvendo questões prosaicas como dirigir, apagar incêndios, regar plantas em meio a uma seca impressionante. Se, débil, Joaquim luta; a força de Nuno impulsiona a ambos a, simplesmente, seguirem em frente.

 

E ainda que haja questionamentos, que ambos busquem saidas juntos e individualmente (Nuno lê a Bíblia e vai à missa) não se perde muito tempo com respostas vãs. A vida está ali diante deles e eles a vivem. E a companhia dos quatros cães e das plantas dão o toque de serenidade à existência deles. Parece pouco? È bastante.

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João Nunes