Publicado 18 de Abril de 2014 - 5h19

Índigo, a campineira formada em jornalismo que decidiu criar suas próprias histórias a recontar as do mundo

Divugação

Índigo, a campineira formada em jornalismo que decidiu criar suas próprias histórias a recontar as do mundo

 

Foto: Divugação.

Índigo, a campineira formada em jornalismo que decidiu criar suas próprias histórias a recontar as do mundo

Índigo, a campineira formada em jornalismo que decidiu criar suas próprias histórias a recontar as do mundo

Abril. Mês do descobrimento, de Tiradentes, da Paixão de Cristo. Páscoa. Renascimento. Palavra perfeita para classificar a literatura infantil, comemorada no dia 18 de mesmo mês, por vezes esquecida, ou camuflada pela atenção especial a tantas datas e feriados nacionais. 

Em 18 de abril de 1882, nascia aquele que transformaria a literatura brasileira. Aquele que acreditava "num país se faz com homens e com livros”. Essa frase criada por ele demonstra a valorização que dava à leitura e sua forte influência no mundo literário. A criação de personagens marcantes que transcenderam época e marcaram também a televisão brasileira, como Emília, uma boneca de pano que através de um pó mágico ganha vida. Este é apenas um exemplo do mundo lúdico criado por Monteiro Lobato, que exemplifica a literatura infantil, capaz de mexer com o imaginário de qualquer criança.

A liberdade de ler

Ler é um hábito fácil de ser tomado. Se há aquele que ainda se questiona em 'por que ler? Qual a importância da leitura?', a resposta é clara: primeiramente, para se informar. E segundo, para elevar a alma. Para a psicóloga Aline Barros de Almeida, a leitura deve ser inserida no cotidiano da criança, desde sempre. A começar por livros de banho, feitos de borracha, ou aqueles de pano que acompanham os sonhos. A criança precisa conviver com os livros. Adormecer com histórias contadas. Acordar alguns anos depois e ter a lembrança a olhos fechados de um momento bom, com o pai, a mãe e o livro. Não há obrigação em ler. Há prazer. Há vontade. E dessa vontade resulta-se um hábito. 

" Uma das minhas primeiras lembranças de infância é da minha professora lendo para a classe. Eu tinha seis anos e estudava na Inglaterra. Estava em fase de alfabetização. Estou sentada perto da janela, onde ficava o aquecedor, portanto a sensação é de um ambiente confortável e aconchegante. O que mais me impressiona é o silêncio dos colegas. Ninguém se mexe, ninguém pisca, estamos imersos na história. A professora, sentada num banquinho, não usa nenhuma alegoria, mal movimenta os braços. Ela apenas lê. A força da contação está na sua entonação, nas pausas, na cadência da leitura, na sutileza. Ela confia que a história é boa o suficiente para nos cativar. E, de fato, ela consegue". As palavras são da escritora campineira Índigo, pseudônimo de Ana Cristina Ayer de Oliveira. 

Em entrevista exclusiva, pedi que me dissesse como adquiriu a paixão pela arte de escrever. De forma sutil, ela disserta sobre a influência natural dos pais, que em todos os momentos, muniam-se de livros. Lembranças na sala, com obras literárias dispersas pelo sofá. E continua: "... quando eu tinha por volta de nove anos, eu ia a um dentista que dava gibis para seus pacientes. Eu achava aquilo a coisa mais simpática do mundo, ganhar um gibi depois de uma experiência sofrida. Era uma compensação. Com esse gesto, ele atribuiu um valor especial ao gibi".

Enfatizar o livro, a leitura como algo bom e prazeroso faz toda a diferença no desempenho da criança amanhã. Quando os pais obrigam o filho a ler algo que não lhes interessam, esse 'compensar', esse 'valor atribuído' deixa de existir, cedendo lugar à obrigatoriedade. A criança precisa sentir que tem opinião, que sua escolha vale. Precisa ir a uma livraria e escolher o livro que será seu companheiro naquele momento. "Para que uma criança pegue gosto pela leitura, primeiramente ela precisa ter a liberdade de escolher aquilo que deseja ler", afirma Índigo. 

A autora conta ainda que a prática da escrita, a paixão pelas palavras, foi consequência do hábito que acabou adquirindo pela leitura. 

"Aos 11 anos comecei a escrever um diário. Era cor de rosa e com um cadeado na capa [...]. Depois eu descobri que meu bisavô também escreveu diários a vida toda. Essa informação fez com que eu sentisse que tinha o dever de prosseguir escrevendo diários para o resto da vida. O que me atraia na leitura era a possibilidade de escapar do mundo, de poder ficar quieta sem ter de interagir com ninguém.E isso se manifestava também na escrita do meu diário. Ainda hoje, tenho todos eles. Não só os meus, como os de meu avô também. Vez ou outra, quando sento para escrever no blog, abro a gaveta e leio alguma anotação do seu dia. Forma simples, que faz com que meu elo com ele sempre esteja ligado."

Não há o livro certo para cada tipo de pessoa. O que há são histórias, das mais diversas, que estão ali para serem lidas. "Em minhas histórias, costumo usar animais como personagens. Acho que me escondo através deles. Ou melhor, me revelo. Eu sou um bicho do mato. Já tive minha fase de bicho grilo e tem dias que sou bicho preguiça. Também, porque, vira e mexe, eu me sinto um inseto. E porque, quando eu escrevo, sinto que mergulho fundo ou então voo para bem longe", completa. 

Foto: Divugação.

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A autora

Índigo começou a publicar seus contos na Internet em 1998, através de um blog, e desde então, ganhou o pseudônimo supracitado. Alguns anos depois, em 2001, deixou a agência de publicidade onde estava trabalhando para se dedicar à carreira literária. Hoje é autora de 24 livros publicados, além de participações em coletâneas, traduções e adaptações de clássicos para histórias em quadrinho. 

Ainda sobre a necessidade de não expor sua verdadeira face, ela explica que o pseudônimo surgiu quando colocou os contos na internet pela primeira vez. " Eu era muito insegura em relação à minha escrita e não queria me expor. Índigo era neutro. Não dava para saber se era homem ou mulher. Atrás da máscara eu me sentia à vontade para criar. E assim fui me tornando conhecida. Escrevendo. Foi uma consequência natural do meu trabalho, nada mais que isso". 

O maior sucesso de Índigo foi o livro 'Cobras em Compota', pelo qual ela recebeu o prêmio Literatura para Todos, do Ministério da Educação, cujo júri incluía autores do porte de Moacyr Scliar. Consequentemente, a tiragem da obra atingiu inimagináveis 300 mil exemplares, pois ela seria distribuída nas escolas públicas do País.

Até hoje não deixou de escrever em seu blog, uma espécie de diário digital. É possível conferir dizeres na autora num primeiro momento Neste Endereço, mais antigo, e também no atualizado Livros da Índigo

" Enquanto a Índigo escreve, a Ana Ayer cria. É assim. Eu não tenho nenhuma obra publicada com autoria de Ana Ayer e nem pretendo escrever. Porque quem escreve é sempre a Índigo. A Ana Cristina tem mais o que fazer. Ela gosta de cuidar de plantas e de ler. "