Publicado 01 de Março de 2014 - 5h30

Pedestres que transitaram pelas ruas do Centro de Campinas ontem tiveram a rotina alterada. Atores do Desvio Coletivo, de São Paulo, e artistas locais misturam-se às pessoas vestidos de executivos, com maletas, bolsas, celulares e documentos, e, o inusitado, cobertos de argila e de olhos vendados. Essa performance, intitulada Cegos, propôs uma reflexão ao fazer crítica à condição massacrante característica do trabalho corporativo iconizado no terno e gravata e no salto alto das grandes metrópoles.

Cegos colocou os cerca de 30 participantes da Oficina de Intervenção Urbana, realizada durante dois dias, para atuar nas ruas e praças. A ação começou no Terminal Rodoviário Ramos de Azevedo, seguiu para o Largo da Catedral, Rua 13 de Maio, Avenida Campos Salles, escadarias do Fórum de Campinas e terminou no Sesc. Causou estranheza nas pessoas. Alguns viram grata surpresa, outros nem tanto. O fato é que poucos entenderam o questionamento.

Em frente às igrejas, tanto evangélicas como a Catedral Metropolitana, Banco do Brasil e Fórum, os artistas fizeram a saudação nazista, com as mãos ao alto e mudos. A reportagem e a equipe da produção foram por todo momento abordadas por curiosos. “Que estranho, assustador, parece até zumbi”, disse a doméstica Maiane Marques, de 29 anos. “Eles querem passar alguma coisa, mas o que é?”, questionou a técnica em farmácia Steffani Neris, de 22 anos. “Sei que é uma cobrança, mas é difícil de entender”, disse o pedreiro Dorival Machado, de 66 anos.

Segundo um dos diretores do Desvio Coletivo, Marcelo Denny, a ideia não é definir, mas incitar reflexões. “Na arte contemporânea não existe é isso ou aquilo. Cada um que faça a sua leitura”, disse. Quando questionado sobre a saudação nazista, afirmou que “sugere uma comparação com os grandes líderes, instituições, empresas que se veem como a classe dominante”.

A aposentada Neide Piccoli, de 70 anos, que viu apenas o caminhar lento dos artistas pela rodoviária, achou que era um protesto. “Pensei que eles estavam protestando. Agora, tudo é isso. De repente, estamos precisando fechar os olhos para muitas coisas. Gostaria de estar ali também.” Ao manifestarem em frente às igrejas, grupos demonstraram indignação. “Isso é coisa do diabo”, diziam senhoras defronte à Igreja Internacional da Graça de Deus. Em comum, por todos os lugares que passaram, foi a reação dos populares em sacar o celular para fazer um registro.

Concebido pelos diretores Marcos Bulhões e Marcelo, o projeto é da rede de criadores Desvio Coletivo em parceria com o Instituto de Artes e Laboratório de Práticas Performativas da Escola de Comunicação e Artes da Universidade São Paulo (USP). Veio à cidade como ação integrante ao projeto Performance que o Sesc-Campinas desenvolve desde o ano passado para a discussão e pesquisa da performance enquanto linguagem artística específica. [/TEXTO]