Publicado 01 de Março de 2014 - 5h30

O vereador de Americana Eduardo da Farmácia (PSDB) provocou a ira de quem luta pela equidade dos sexos na cidade ao dar declaração polêmica em debate sobre a liberação de verbas municipais para creches em sessão da Câmara na semana passada. “Os homens precisam ganhar melhor para que as mulheres possam ficar em casa, cuidando da família”, disse o parlamentar durante a discussão. Na sessão de anteontem, um grupo 20 pessoas atirou cuecas em Eduardo, em ato de repúdio.

Consultados pelo Correio, representantes de grupos feministas e a socióloga Patrícia Rocha Lemos classificaram o episódio como infeliz. Procurado para comentar o assunto, o presidente da Câmara, Paulo Chocolate (PSC), não atendeu a reportagem.

Segundo o organizador da manifestação, Denis Carvalho, a posição do vereador foi machista e fere os direitos das eleitoras do próprio parlamentar. A sessão já havia começado quando integrantes do coletivo Pula Catraca e da Frente Feminista de Americana entraram no plenário, com gritos de protestos. O tucano, que afirmou defender a liberação dos recursos para as entidades que cuidam das creches, ficou sem reação ao ver os manifestantes atirando as peças. Não houve repressão ao ato, que foi pacífico.

Eduardo disse que a reação à frase foi “desproporcional” e que ela foi analisada “fora de contexto”. “A mulher deve trabalhar para ajudar a suprir a família. Só quis dizer que se ela tiver a oportunidade e, principalmente, se quiser ficar no seu lar, isso pode ser bom para o relacionamento com os filhos”, disse.

O vereador afirmou que sua mulher é dona de casa por opção, mas ajuda de vez em quando em sua farmácia. “E minha filha trabalha. Jamais quis ferir a moral das mulheres.” Ainda segundo o vereador, ele analisará, com outras mulheres, a gravação da sessão para ver se cabe uma retratação. “O ato ontem (anteontem) foi maldade pura e um ato político”, disse.

Grupos organizados de Americana, porém, discordam do parlamentar. Representante do Pula Catraca, Denis Carvalho afirmou que o grupo recebeu manifestações de diversas mulheres e homens a respeito da declaração. “Quem assistiu à sessão da Câmara pela televisão se revoltou instantaneamente. Por isso, combinamos de fazer o ato de repúdio. Para nós, lugar de mulher é onde ela quiser”, falou.

Para a historiadora e militante da Marcha Mundial de Mulheres Glaucia Fraccaro, a afirmação de Eduardo reforça a opressão contra as mulheres. “A imensa carga de trabalho que as mães têm dentro de casa é um dos principais pontos de opressão. Um indicador do IBGE mostra que elas fazem 24 horas semanais de trabalhos domésticos, enquanto os homens fazem nove.” Segundo Glaucia, o tempo que a mulher passa cuidando dos filhos ocupa o período em que ela podia estar se qualificando para o mercado de trabalho, estudando ou tendo algum tempo de lazer. “E sabemos a importância das creches para a autonomia das mulheres e para a educação dos filhos.”

Mestre em ciências políticas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a socióloga Patrícia Rocha Lemos afirmou que a declaração desconsidera a luta histórica pelo direito ao trabalho e equidade de condições entre os sexos. “Foi uma declaração grave, pois reforça a ideia da mulher submissa, que deveria ficar dentro de casa. E ignora uma trajetória toda de emancipação, além de deixar de lado o direito da criança a uma educação de qualidade, que também é papel do Estado.”