Publicado 01 de Março de 2014 - 5h30

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), inaugurou ontem a segunda Delegacia Seccional de Campinas, no Jardim Londres, com apenas parte do prédio pronto — que ainda passa por reformas — e sem o total de funcionários necessários, que serão contratados aos poucos, no decorrer do ano. Durante o evento, Alckmin enfrentou um protesto organizado pela Associação de Familiares e Amigos de Policiais do Estado de São Paulo (Afapesp), sindicatos e movimentos sociais (leia texto nesta página). Mais tarde, o governador seguiu para a Prefeitura, onde anunciou o repasse R$ 80 milhões para construção de um novo teatro, no Parque Ecológico.

Sem efetivo suficiente, o secretário de Segurança Pública do Estado, Fernando Grella, não descartou a possibilidade de transferir de outros distritos funcionários e policiais para garantir o funcionamento da nova Seccional. Após a polêmica que envolveu o fechamento do plantão do 9 DP, na região do Ouro Verde, tanto Grella quanto Alckmin garantiram que não haverá fechamento de outras delegacias. “Não existe isso, nenhum distrito fecha. Foi uma cogitação que não foi aprovada, não autorizada”, disse o secretário. O governo voltou atrás em relação ao encerramento do plantão após críticas da população.

A nova delegacia começa a funcionar neste momento com 37 pessoas — sendo cinco do setor administrativo e o restante de policiais. Por enquanto, haverá apenas atendimento de registros em uma central de flagrantes, sem investigações. O número inicial de 45 funcionários divulgado pelo Estado levava em consideração oito policiais que seriam deslocados do plantão do 9 DP, o que acabou não acontecendo.

De acordo com Grella, desse total, 22 policiais estão sendo transferidos da Capital e sete cedidos pelo Departamento de Trânsito de São Paulo (Detran-SP). O aumento de efetivo virá a “conta-gotas”. Segundo o secretário, até o final de março, serão alocados para a nova Seccional mais 30 policiais. A origem deles não foi informada pelo secretário. Ao longo do ano serão contratados mais 96, por meio de concurso público e por remanejamento. A expectativa é chegar a 198 contratações.

Questionado se as realocações serão feitas das delegacias de Campinas, o secretário disse que não descarta a transferência de pessoal de qualquer unidade para a nova Seccional. “Temos uma resolução que estabelece o quadro e lotação de todas as unidades do Estado. Não é de Campinas, vale para todos. Se tiver uma unidade que estabeleça que tem de ter três policiais e ela tiver quatro, esse um pode ser remanejado. Vamos implantar ao longo do tempo.”

O Estado depende desses profissionais para que a nova Seccional possa funcionar de forma plena — com uma nova Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) e Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). O prédio também passa por obras que estão no início. Por isso, nesse momento, a delegacia funciona somente com plantão 24h para registro de boletim de ocorrência e atender flagrantes da região. As investigações continuam sendo feitas pelos policiais dos DPs.

Grella evitou dar uma previsão de quando a Seccional começará a funcionar totalmente. “Fica pronta no decorrer do ano, quando nós tivermos o concurso. O concurso exige um tempo, que não é só formação em si. Isso você não se faz em seis ou oito meses”, disse.

O presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Campinas e Região, Aparecido Carvalho, criticou a forma com que o governo resolveu inaugurar a delegacia. “Registrar boletim de ocorrência é importante, assim como ter plantão, mas para acabar com o crime, é necessário investigar”, disse.

Promessa

A segunda Seccional em Campinas é uma promessa antiga de Alckmin, que havia previsto inaugurar a nova sede em dezembro do ano passado. Depois, disse que voltaria à cidade em janeiro, o que também não foi cumprido. A falta de estrutura causou um desgaste político do governador e irritou policiais, que reclamam da falta de pessoal.

Além do o 9 DP, estão também subordinados à nova sede o 6 DP, no Jardim Novo Campos Elíseos, 8 DP da Vila Padre Anchieta e o 11 DP, no Jardim Ipaussurama, e também as unidades de Indaiatuba: 1 DP e DDM.

Governo libera teatro e prevê ajuda a parque

O governador Geraldo Alckmin também assinou ontem convênio com a Prefeitura de Campinas para o repasse de R$ 80 milhões para construção do Teatro de Ópera Carlos Gomes, no Parque Ecológico. O anúncio foi feito no Paço Municipal, após a inauguração da segunda Seccional. A previsão é de que as obras sejam finalizadas em quatro anos. O processo de licitação para início do projeto é imediato. No trajeto de carro entre a delegacia, no Jardim Londres, até a Prefeitura, o tucano prometeu ao prefeito uma ajuda para revitalizar o parque. O valor, porém, não foi definido. Essa é mais uma tentativa do governo de otimizar o uso do parque, hoje praticamente abandonado. “Vamos verificar, ainda, se há algum investimento para ajudar na recuperação do parque. Já estão liberados R$ 9,8 milhões (primeira etapa de construção do teatro). Mas, se a obra andar mais rápido e for preciso, nós complementamos”, disse o governador. Por meio do convênio, o dinheiro será repassado à Prefeitura, que ficará responsável por todas as etapas de implantação do projeto — da licitação à execução. (BM/AAN)

Estado vai reforçar ação da ‘Tropa do Braço’ na Copa

Antes de desembarcarem em Campinas, Geraldo Alckmin e o secretário de Segurança Fernando Grella estiveram ontem em Brasília para tratar de assuntos relacionados à atuação da polícia nos possíveis protestos durante da Copa do Mundo. Os dois estiveram na Casa Civil e com representantes do Ministério da Justiça. Segundo Grella, em São Paulo haverá uma unidade da Polícia Militar criada especialmente para a Copa com 4,2 mil homens. Eles serão responsáveis pelos possíveis protestos que possam acontecer. No Interior, haverá um incremento de 15% do efetivo da PM para suprir profissionais que estiverem em férias ou em licença. “Caso seja necessário, haverá, claro, apoio da PM da Capital para as cidades do Interior”, disse. Campinas receberá duas delegações: a nigeriana e a portuguesa. Grella disse que a tática adotada pela corporação ultimamente, com soldados treinados em artes marciais, na chamada Tropa do Braço, apresentou bons resultados e será mantida para a Copa. “Todos em Brasília elogiaram muito a ação da polícia. Reduziu o vandalismo, houve apenas casos pontuais. Houve ação de isolamento e inteligente”, disse o governador, em Campinas. “Ter o nome e identificar as pessoas que participam das manifestações ajuda muito”, acrescentou. Segundo Grella, representantes da Casa Civil pediram que o governo de São Paulo retransmita a experiência do último protesto a outros estados. (BM/AAN)

Manifestação tumultua a chegada para inauguração

A chegada de Alckmin à nova Delegacia Seccional, no Jardim Londres, foi tumultuada por causa de um protesto organizado pela Associação de Familiares e Amigos de Policiais do Estado de São Paulo (Afapesp), sindicatos e movimentos sociais. Um grupo de 50 pessoas fechou uma faixa da Avenida John Boyd Dunlop e causou congestionamento. No trecho, foram colocadas 24 cruzes que simbolizaram a morte dos policiais militares em todo o Estado, entre eles dois em Campinas. Houve a simulação de um PM morto — um boneco com uniforme da corporação estendido na avenida.

Com a situação, a equipe do governador não conseguia ter acesso, de carro, à delegacia. Seguranças tiveram de intervir. Enquanto conversavam com os manifestantes, garantindo que o governador atenderia o grupo, o tucano se dirigiu até o local com o prefeito Jonas Donizette (PSB) a pé, escoltado por policiais militar.

Durante o evento, que foi realizado na área externa da delegacia, cercada por alambrado, Alckmin discursou ao som dos gritos e apitaço dos manifestantes, que acompanhavam a cerimônia pelo lado de fora. O mesmo aconteceu com o prefeito e o com o secretário de Segurança Fernando Grella. Eles entoavam gritos de “Alckmin fascista” e exibiam cartazes com críticas à Segurança e Educação.

O discursos foram curtos. Alckmin chegou com uma hora de atraso e falou rapidamente. A presidente da Afapesp, Adriana Borgo, disse que o protesto foi organizado para chamar a atenção do governador quanto à situação a PM. “São 24 policiais mortos no Estado no ano passado e as famílias não tiveram assistência. Também chegamos à data-base da categoria e o governo nem chamou para negociação”, disse. Adriana afirmou que enviou um ofício pedindo reunião com Alckmin, sem resposta. Um interlocutor do governo garantiu a ela que a reunião seria marcada.

Alckmin defendeu seu governo. “Os protestos são livres. Mas a gente tem procurado valorizar os policiais. Em nosso mandato, os reajustes foram sempre acima da inflação.” Segundo o governador, o último reajuste foi de 8,7%. Ele também disse que seu governo tem permitido ascensão na carreira do PM. “Criamos 24 mil vagas para cabo. Alguns soldados estão há 18 anos na mesma função. Permitimos isso para que houvesse promoções.” (BM/AAN)