Publicado 01 de Março de 2014 - 5h30

Os brasileiros alimentam um intenso desejo de justiça, um estado em que a violação das leis e a contravenção sejam efetivamente punidas, restabelecendo a normalidade das relações humanas e protegendo os cidadãos contra a escalada da violência que acontece acobertada pela impunidade e pelo desaparelhamento da Justiça. Há tempos que o Brasil vê desabar suas instituições mais caras diante de uma turba de espertos que se aboletaram no poder e criam uma realidade paralela que é financiada pelas pessoas de bem e trabalhadores no geral, vítimas de um sistema incompetente e que privilegia os desonestos.

O episódio do mensalão do Partido dos Trabalhadores começa a configurar o seu final patético, deixando para a sociedade a convicção de que nada será exemplarmente punido, mesmo diante de todas as evidências do crime e sua comprovação. O Supremo Tribunal Federal (STF), devidamente arquitetado pelo governo petista, praticamente jogou por terra o sério e alentado trabalho que levou para a cadeia elementos proeminentes do partido. Ao desqualificarem como quadrilha a ação dos petistas, o STF abrandou significativamente as penas de José Dirceu e Delúbio Soares.

Desnecessária a teatral reação do presidente do Supremo Joaquim Barbosa que, em seu já prosaico estilo afeito aos holofotes, censurou publicamente o voto de seus pares, sugerindo que tenham atendido ao projeto do governo de reverter o julgamento do mensalão. Ele próprio, embora com perspicaz razão, desqualifica a instituição que representa, esquecendo-se que a lentidão do Judiciário é que permitiu que um processo dessa importância se arrastasse por anos a fio, a contragosto da opinião pública, que deseja um rápido desfecho para todos os casos.

Esse é o impasse maior das instituições no Brasil. Os corruptos continuam avançando vorazmente sobre os recursos públicos, os políticos traem sua moral e os eleitores, o País entra em ritmo de atraso, bandidos ampliam seu poder e encurralam as comunidades, enquanto o Judiciário nega as respostas exigidas pela sociedade em nome de uma legislação e um rito processual que são o verdadeiro gargalo da democracia e do estado de direito. Já se tem dúvidas se a impunidade não é moeda corrente nas relações institucionais, e o País está amargando o alto custo de sua irresponsabilidade de adiar recorrentemente suas decisões mais importantes. Enquanto isso, paga-se o alto preço de uma sociedade promíscua, onde os desonestos continuam dando as cartas com desfaçatez e acinte.