Publicado 06 de Março de 2014 - 5h00

Colunista Zeza Amaral

Cedoc/RAC

Colunista Zeza Amaral

Uma longa ladainha percorre meus ouvidos e vejo um coroinha incensando os pecados dos fiéis. Ainda guardo na memória o silêncio das ruas do Taquaral, as mulheres falando baixinho no açougue, no empório, na padaria e também na feira livre.

A Quaresma impunha silêncio e reflexão, até mesmo aos rufiões dos prostíbulos do Taquaral; e até as mulheres da tão difícil vida fácil (by Jorge Amado) se cobriam de luto. Tudo o que lembrava o Carnaval recém-findo era esquecido. Confetes e serpentinas adquiriam poder demoníaco e virava lixo venenoso. O que restava era só o som distante da bateria da escola de samba, vibrando na lembrança; e o aroma do lança-perfume ia se despedindo das camisas e lenços, cruelmente alvejados com sabão de pedra e sol nos quaradores.

Os santos das igrejas eram cobertos por mantos roxos; e as quaresmeiras floriam tristemente. Eram tempos de muita reza e penitência das senhoras tementes, todas elas elegantes em seus véus enlutados e rosários de prata, alguns lavrados em fino ouro.

Meus olhos ainda guardam o corpo do Cristo ensanguentado, varado por pregos, a cabeça inerte e machucada pelos espinhos da coroa humilhante, deitado na laje fria do altar, à espera da autópsia da fé. Sempre me deu pena ver o corpo desse homem torturado, não pela dor sofrida, mas pelos seus sonhos condenados, há milênios, a serem constantemente reconstruídos nas catedrais e nas pequenas ermidas. E as minhas pequenas mãos ajudavam o sacristão a cobrir os santos da igreja, enclausurando-os em seus nichos, protegendo-os das beatas sedentas em sempre pedir graças sem descanso, todos os dias, em todas as novenas, em todos os seus momentos de aflição.

As igrejas de hoje fecham suas pesadas portas em quase horário comercial e já não vejo mais pedintes mostrando suas feridas e pedindo compaixão aos fiéis. Alguns homens anunciam ao mundo que encontraram o túmulo de Cristo — e que ganharão muito dinheiro com isso, o que não é novidade nenhuma quando se trata de vender as chagas de um homem santo, que dirá de um filho de Deus.

Agora, também, são os tempos dos Efuns africanos, das almas desencarnadas dos homens, guardadas e protegidas nos terreiros de candomblés, onde os runs, pilés e pilezinhos ficarão em silêncio, com suas peles em descanso e enrugadas. Zeladores de santos, babalorixás e olorixás, já guardaram seus búzios e fecharam seus Ifás. Iaôs seguem a faina diária de quinar as insabas para lavar o templo de suas carnes ancestrais; ervas santas perfumarão os roncós, agora úteros estéreis, ventres vazios; ogans entoam cantos graves a Olorun, Senhor Supremo de todos os orixás.

Todos os caminhos serão travados pelas porteiras metafísicas que se fecham à vontade de Exu. Ninguém passa. Ninguém vai. Ninguém volta até o fim das quarenta noites e dias; pois que o Mistério assim exige de todos os tementes, de qualquer credo, desde que pacíficos, crentes e apaixonados.

Tempo de quaresma. Os tementes estão taciturnos, e tristes. E eu que nada temo, porque dos pecados nada sei, sigo os caminhos das calçadas da minha cidade, cantarolando em assovio desafinado velhas marchinhas de carnaval, buscando compreender por que um Deus, seja ele qual for, quereria homens tristes para louvá-lo. Quem senão os tristes gostam de tristeza?

Bom dia.