Publicado 05 de Março de 2014 - 5h00

ig - Rodrigo Moraes

CEDOC

ig - Rodrigo Moraes

A semana começou com a história de uma improvável sobrevivente. É difícil entender como alguém sai vivo depois de cair de 50m de altura de uma ponte. No caso, a Ponte Rio-Niterói, que em seu trecho central chega a se estender 72m acima da Baía de Guanabara.

 

Nesse abismo caiu, segundo os jornais deram com destaque na segunda-feira, a motorista Marina Pinto Borges, que ia para o trabalho cedo pela manhã e perdeu o controle do carro.

 

Não acredito em milagres, ainda que divida com aqueles que creem um respeito pelo mistério. Aceito o mistério daquilo que contradiz todas as expectativas, que desafia a nossa compreensão das coisas.

 

É diferente do gato que, quando menino, vi atravessar correndo na frente de um carro que descia a rua.

 

Tive a certeza de que o bicho seria atropelado, mas, talvez por instinto, o felídeo executou uma trajetória em diagonal, passou a centímetros das rodas dianteiras e saiu ileso do outro lado — não sem antes raspar o lombo na placa da frente.

 

Foi por um triz: a vida do bicho se equilibrou em uma navalha, mas o que estava em jogo ali era o tempo, e uma fração de segundo representou a diferença entre viver e morrer esmagado. Foi sorte.

No caso do acidente na ponte, não havia uma janela de oportunidade colocada para a motorista, isto é, nada restava a ela fazer senão esperar o inevitável choque.

 

Não sei quantos segundos o carro de Marina levou até bater na superfície da baía, mas os rudimentos de física que me restam do colegial me ensinam que a força do choque foi descomunal.

 

E que a água, segundo a terceira lei de Newton, longe de representar um colchão de amortecimento, serviu como uma superfície implacavelmente dura, uma parede aguardando ao final de uma queda longa e agonizante.

Não sei que vetores de força agiram sobre o carro e o corpo de Marina e possibilitaram que ela sobrevivesse ao acidente. Não sei se, acionados, airbags fariam diferença. Li que o carro mergulhou de frente — se caísse de lado certamente seria pior.

 

Talvez o próprio veículo seja uma proeza de engenharia em sua capacidade de absorver as mais furiosas pancadas. E talvez tudo isso ao mesmo tempo.

No suspense Corpo Fechado, o personagem de Bruce Willis deixa ileso o hospital após o trem em que estava descarrilar e matar todo mundo a bordo.

No filme, porém, as coisas estão fundadas no paranormal, no mágico, e assim são compreendidas e aceitas; o incidente fluminense, por outro lado, enfiou o pé na porta da semana de Carnaval e ofereceu um choque (sem trocadilho) de realidade combinado com o inusitado.

 

Uma máxima do jornalismo reza que notícia não é quando o cachorro morde o homem, mas quando o homem morde o cachorro.

 

Há um óbvio exagero nessa afirmação, mas em essência trata-se do seguinte: o certo, o esperado, o “normal” seria que fosse contabilizada uma morte sob a ponte Rio-Niterói na manhã de segunda-feira. Mas, por uma combinação de fatores na qual entraram o acaso e a sorte, não foi.

 

Não acredito em intervenção divina, mas algo de excepcional aconteceu ali, sobre as águas da Guanabara, que me deixou pensando sobre como o destino tem seus próprios caminhos.