Publicado 04 de Março de 2014 - 5h00

Manuel Carlos - correio

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Manuel Carlos - correio

Em dezembro de 2012, depois de 25 anos de magistério, pedi minha aposentadoria e durante todo o ano passado não mais convivi com meus alunos, sentindo muita saudade.

Todos os anos, logo após o Carnaval, me preparava para o retorno às aulas. A preparação para esse momento era sempre de muita reflexão. Não queria que meus alunos, simplesmente, aprendessem o Direito. Deviam senti-lo e saber desenvolver um espírito crítico sobre as informações que lhes passava.

Sempre soube que muitos ali estão já pensando em prestar um concurso público para ingresso nas mais variadas carreiras jurídicas. Não que todos eles tenham vocação para elas, mas buscam a segurança econômica, fugindo da militância da advocacia, que é bastante árdua. O talento e o verdadeiro conhecimento vão ficar em segundo plano. Seja qual for o concurso, na primeira “peneirada”, deverão estar aptos a preencher com correção aqueles quadradinhos imbecis em que se testa muito mais a memória do que qualquer outra coisa.

Ao longo desses 25 anos de magistério convivi com os mais diversos tipos de alunos e cada vez mais achava difícil prever o que seriam no futuro. No início, quando me deparava com um aluno comportado, estudioso e vestido de maneira mais formal, pensava estar diante de um futuro juiz e o bagunceiro, que aparecia de bermuda e chinelão, fugindo da aula para jogar truco no Centro Acadêmico, seria o advogado. Com o tempo, aprendi que estava redondamente enganado. Muitos daqueles bagunceiros tornaram-se grandes magistrados e muitos arrumadinhos, péssimos advogados.

Não há uma lógica nessa questão e talvez seja por isso que não é relevante aprender o Direito. É preciso senti-lo e entendê-lo verdadeiramente.

A maior dificuldade era fazê-los entender que não estavam ali para se tornarem aptos a prestar concursos públicos e que o sucesso da advocacia não é o econômico. Talvez, se contasse a eles um pouco da vida de Sobral Pinto, que foi uma lenda de altruísmo, abnegação, honorabilidade, talento e morreu na mais franciscana pobreza, poderiam melhor compreender o que é ser um verdadeiro jurista.

O momento que o Brasil vive não é muito animador para dar lições de moralidade e justiça. A corrupção atingiu níveis alarmantes e a desigualdade social fica cada vez mais acentuada, mas não podemos nos deixar abater e devemos continuar combatendo essa avalanche de estupidez que voltou a tomar conta do Estado.

Sobral Pinto, mostrou sua vontade de seguir a carreira de Direito ainda criança, quando sentiu a necessidade de fazer alguma coisa quando crescesse, para combater atrocidades como a que presenciou, em Porto Novo, quando um carroceiro da estrada de ferro foi espancado por capangas, conhecidos do outro lado do rio como policiais.

Quem sabe, a atual situação do Brasil também não seja um estímulo para nossos jovens estudantes e faça com que sintam a necessidade de fazer alguma coisa, particularmente pelos desfavorecidos, que são os que mais sofrem, exatamente porque mais dependem do Estado.