Publicado 04 de Março de 2014 - 10h23

De saída peço desculpas aos leitores desta coluna por levantar, em pleno Carnaval, a questão da violência, quando todo mundo participa de algum tipo de bloco, até os nobres deputados têm o seu blocão, pois querem ver a presidente Dilma dançar, ao som da marchinha: “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí...” se não atender suas negociações partidárias e demandas individuais. Já esqueceram ou fazem ouvidos moucos ao grito das justas reivindicações das ruas que, desde junho passado, de algum modo, continuam ainda a repercutir.

Louvo-me em Raquel Rolnik, que em extraordinário artigo na 'Folha' (24.02.2014) — “Um jogo de sombras” — me ajudou a tematizar um pouco melhor assunto tão complexo. R. R. avançou, corajosamente, na reflexão. Colocou seu afiado bisturi no tumor que vai infectando todo o tecido social, apontando causas históricas e recentes da violência de alto a baixo em nosso País.

Diz ela, acertadamente, que a violência no Brasil não foi inventada pelos “black blocs”. “A violência faz parte de nossa cultura: das guerras entre torcidas à violência doméstica; dos linchamentos públicos às ações discriminatórias e racistas praticadas amplamente, inclusive pela polícia, dos assassinatos de camponeses à prostituição infantil e todo tipo de tráfico de milícias”.

 

Nossa querida cidade de Campinas não é nenhuma ilha, onde se possa viver tranquilamente, sem medo e sem sustos. Ainda é viva a lembrança do assassinato do Toninho prefeito, que sonhava poder, um dia, passear com sua filha pelo Centro, percorrendo ruas e praças, partindo da Catedral. Oxalá o prefeito atual, numa dessas noites, sonhasse o mesmo sonho. E acordasse na real. É de ontem a chacina das 12 pessoas, sendo cinco do bairro Vida Nova e as demais de bairros vizinhos, apesar de certo silêncio que a acoberta. Nesses dias devem ir a júri popular os supostos assassinos do estudante Denis Casagrande, de 21 anos, espancado e morto em setembro do ano passado, numa festa no campus da Unicamp.

 

Na porta da Igreja Divino Salvador o Sr. Elias, que vive em situação de rua, conta-me que tomou várias descargas elétricas de um policial da GM porque dormia debaixo de uma marquise no entorno da Igreja do Carmo. Uma agente policial civil, que teve acesso ao boletim de ocorrência, me garantiu que é verdade e que o soldado da GM fez uso indevido da arma — taser —, inclusive com descargas muito acima do permitido. E pasmem! Elias foi detido por desacato à autoridade. Elias é um forte, como tantos moradores de rua, que, apesar de tudo, resistem e sobrevivem. Mereceria ser condecorado com o título de cidadão campineiro!

Diante desta cruel e dura realidade muito oportuna a Campanha da Fraternidade deste ano cujo tema é: “Fraternidade e o tráfico humano”. Esta violência do tráfico humano, no texto da Campanha da Fraternidade é analisada em várias dimensões: exploração do trabalho, exploração sexual, tráfico para extração de órgãos, tráfico de crianças, adolescentes e mulheres.

 

A Igreja, corajosamente, traz à luz esta purulenta chaga social e coloca-se decididamente em defesa da vida, da dignidade da pessoa e dos direitos humanos. Ela vê no rosto dos pobres, sofredores e indefesos, o rosto de Cristo crucificado.

A Campanha da Fraternidade, mais uma vez nos interpela: onde está teu irmão? O que você fez com ele? O que você faz por ele?

 

Amanhã, quarta-feira de cinzas será lançada em todo o Brasil a Campanha da Fraternidade que será realizada intensamente durante o tempo litúrgico da Quaresma que se inicia com esta interpelação de Jesus Divino Salvador: “Convertei-vos e crede no Evangelho”.