Publicado 06 de Março de 2014 - 0h31

Henrique Nunes

AAN

Henrique Nunes

Abre alas, foliões da bola, que a vida agora tende a ser melhor. O carnaval passou e a vida entrou na avenida em grande estilo, sucumbiu ao batuque profano, derrubou as regras do jogo, reciclou o lixo que se acumulava pelas ruas da nossa existência. Aos boleiros, não há mais desculpa: é hora de voltar à labuta, botar samba no pé da profissão, virar a cambalhota da loucura, do improviso, da falta de pudor para nos trazer de volta o nosso segundo esporte preferido depois das mulheres.

Está tudo gravado, registrado, rotulado, carimbado, avaliado o tanto que a boleirada se divertiu, cada golaço marcado fora das quatro linhas, os passes, impedimentos, táticas, cartões amarelos e até os vermelhos desferidos por quem levou flagrante nos últimos dias. Ai de você, lateral-direito se não marcar a descida dos rivais tão bem quanto marcou aquela loira no camarote da Sapucaí. Veja lá goleirão se não toma mais tanto frango como os que levou da esposa após o Carnaval. Se liga, atacante, e nem tente sair da área de fininho porque a gente sabe por onde tu andas quando não tem rodada no meio de semana. Fica esperto aí, meio-campista, não deixa nada passar por você, porque se não eu conto pra todo mundo aquela bola nas costas que andou levando nos botecos menos iluminados da cidade.

A folia é saborosa, infalível como uma dose de cachaça, dois limões espremidos e uma colher de açúcar. Mas a vida também pode ser amarga como vermute falsificado se a gente não cair na real a tempo de salvar o relacionamento com a rotina. É triste, ninguém quer, fica difícil largar o osso, soltar a mão da dama no salão, abandonar o barco da loucura e voltar para o batente.

Mas é assim que tem de ser. Agora é treinar duro, ralar, comer bem, cortar o álcool e ficar careta para poder ter muitos outros carnavais no futuro. Não, não precisa fazer quaresma, nem mesmo virar coxinha. Mas uma demonstração de lucidez é sempre bom quando o exagero não dá trégua.

Vamos lá boleirada, esqueçam os tapas-sexo, as rainhas da bateria, as ofertas de desejo puro e simples e sambem na avenida da bola. Façam e desfaçam o que quiserem, mas não bocejem dentro de campo. Porque não há engov que alivie a treta de quem só quer sombra e cerveja fresca durante o ano inteiro. Fica inteiro logo boleiro, para no ano que vem poder cantar sem peso na consciência e pulmões repletos de energia aquele samba lindo e arrebatador do Nelson Cavaquinho: “Vou partir/Não sei se voltarei/Mas não me leve a mal/Hoje é Carnaval.”