Publicado 05 de Março de 2014 - 5h00

Gustavo Mazzola

Cedoc/RAC

Gustavo Mazzola

Posso dizer, foi inesperado o que aconteceu comigo no Carnaval. Metido em roupas discretas, sozinho, cheguei à noitinha a um mosteiro de ares sombrios, lá pelos lados do início da Castelo Branco, em São Paulo: era onde aconteceria o Retiro Espiritual da Opus Dei, o primeiro na minha vida. Segundo um amigo experiente na matéria, iria vivenciar ali momentos de intensa religiosidade, longe de tudo, longe do mundo. Sem Carnaval.

Agora, no primeiro dia do tríduo momesco, estava pronto para começar, digamos, uma “reclusão planejada”. Não conhecia ninguém, nem mesmo imaginava exatamente onde estava. Bem, aos poucos ia me arranjando, fazia contatos, buscava informação, ouvia o que me diziam: “de onde você é?”, “Ah! jornalista”, “Olha, eu já vim aqui três vezes”, “Eh! Tenha calma, daqui a pouco vão fazer uma preleção importante, você vai entender a importância de tudo isso”.

 

Depois de algum tempo, a conversa já rolava fácil. Todos amigos, muita coisa para contar, de casa, do trabalho.... Enfim, a Opus falou conosco: informações gerais, apresentação dos organizadores do Retiro, noções históricas, coisas assim. Em seguida já éramos convidados a subir aos aposentos, no andar de cima. Cada um no seu quarto: uma cama, um criado mudo, uma bíblia em cima. Na parede, um crucifixo. Mais nada. Ainda bem que trouxera o meu Veríssimo para ler, bem guardado na mala.

 

No dia seguinte, todos à mesa para o café da manhã, farto, convidativo.

— Amigo, dormiu bem esta noite? Você me passa o pãozinho, por favor?

Nada. Nenhuma resposta. Estranhei. Olhei em volta, todos num silêncio sepulcral, que dava para se ouvir uma mosca no ar. Aqueles da noite anterior, tão comunicativos, amigos, agora eram outros: nem me olhavam.

 

Só então entendi tudo. Dali para frente ninguém falava mais. Eram as regras da casa, no máximo um ou outro gesto, rápido, seco. E, ao longo dos próximos três dias — de Carnaval — era isso aí mesmo: rezar, assistir às muitas missas, enriquecidas de momentos grandiosos, iluminados, ouvir pregações religiosas, confissões de joelho e cabeça baixa, passeios pelos jardins do Mosteiro, todos sozinhos e de olhos para o chão, compenetrados. O silêncio, sagrado. E era tudo: no ar, um clima severo de adoração a Deus.

 

Enfim, chegou o último dia e, já na hora de ir embora, de repente, tudo se transformava: voltava a alegria e os papos da noite da chegada. De novo, ao normal. Terminava o Retiro, voltávamos para casa de alma lavada.

 

São surpresas que, às vezes, acontecem com a gente num Carnaval: você já não passou pela experiência de, de repente, ver chegar do interior aquela sua tia muito católica, que quer conhecer as igrejas, receber uma bênção do padre da paróquia? Além disso, lhe pede para levar a todos os pontos turísticos da cidade... Tudo exatamente nos dias do Carnaval. E os momentos aflitivos vividos por uns primos, no fim de uma boa noite de alegria no Cultura? Era um período de muita chuva e, na hora de voltar para casa, aventuraram-se pela Orozimbo: foram surpreendidos por uma inundação daquelas. Os carros com água até o teto, todos saindo pelas janelas, quase morrendo afogados.

 

E os dias seguintes? Cuidar dos estragos, buscar ajuda, acalmar os ainda assustados. Teve, ainda, uma primeira noite da chamada “folia” quando, ainda na adolescência, passei a bordo de um ônibus da Manoel Rodrigues: enquanto todos pulavam ao som das marchinhas maravilhosas no clube social da minha cidade, eu atravessava o Estado em direção a Campinas, pois, no dia seguinte, tinha que me inscrever para o cursinho do Vestibular na Puc. E precisava ser no dia seguinte, pois as matrículas já se esgotavam.

 

Incrível, também, a história acontecida com um colega de trabalho, que o derrubou num desses carnavais. Já cansado, meio bebum, de repente avistou no meio do salão uma antiga amiga, pequenina, de longos cílios postiços e uma máscara de fantasia que lhe cobria os olhos. Correu para ela: enfim, a reencontrava depois de tantos anos. Seria um bom momento para reviver coisas do passado, histórias... Chamou-a pelo nome, sem ser ouvido. Acercou-se dela, e gritou nos seus ouvidos:

 

— Ei! Está bonita! Como vai?

 

— Vou bem, querido! E você?

 

Quando ela levantou a máscara, assentando-a no alto da cabeça, um susto! Como estava diferente: rugas pela face, fios brancos e molhados de suor, toda marcada pelos anos. Aqueles olhos negros, insinuantes, o rosto de pele sedosa e cor de jambo, os cabelos curtinhos... Para onde teriam ido?

Sem dúvida, foi a sua grande e maior surpresa no carnaval.